segunda-feira, 17 de junho de 2013

Roma: Urbs Æterna II

A primeira coisa que fui fazer no dia seguinte foi visitar a  Piazza Navona de novo, afinal a decepção da noite anterior não me permitiu ver os detalhes. A praça tem uma forma elíptica bastante alongada, pois séculos e séculos atrás foi, antes de praça, o estádio de Domiciano, e até hoje manteve a sua forma. Possui três belas fontes, uma em cada extremidade e uma no meio, sendo esta ornada com um obelisco egípcio, como era a moda antigamente. Gostei especialmente de uma em que Netuno está retratado matando um polvo gigante.

Netuno derrota um polvo gigante.
A praça é dominada por cafés e restaurantes, e várias barraquinhas de vendedores de suvenires, boa parte dos quais, surpreendentemente, é de aquarelas falsas. Só vi um pintor de verdade pintando aquarelas. Se eu tivesse contido meu impulso, poderia ter comprado um original dele. É nesta praça que fica a embaixada do Brasil.
Piazza Navona. A forma elíptica veio do antigo estádio sobre o qual a praça foi construída.

Em seguida fui caminhando até o Panteão, outro famosíssimo monumento romano. O Panteão  foi construído durante o reinado de Adriano e era dedicado a todos os deuses romanos. Ele chama a atenção por duas coisas. A primeira, pelo seu excelente estado de conservação, tendo conseguido manter-se de pé através dos séculos. O segundo, pela enormidade de sua cúpula, que está escondida atrás do gigantesco pórtico.

O panteão, em toda a sua glória.

O Panteão detém um monte de recordes, sendo o templo romano mais bem conservado, tem a maior cúpula de alvenaria da história da arquitetura, é o precursor de todos modernos locais de culto ocidentais e é a estrutura da antiguidade mais copiada da História.

Ao contrário dos gregos, que faziam suas construções para serem admiradas de fora, os romanos apreciavam também criar belos espaços interiores. O Panteão é um ótimo exemplo disso. Além do mais, ele foi criado para fazer um recinto fechado que isolasse quem está dentro do mundo exterior e todos os seus problemas, favorecendo o culto e a proximidade com os deuses. É este conceito de templo que perdura até hoje nas igrejas ocidentais, o que faz do Panteão assim precursor, como falei acima.

A construção se manteve bem conservada porque foi construído como templo romano, mas foi transformada em basílica cristã bastante cedo, ficando assim protegido da espoliação.

O Panteão que conhecemos foi construído sobre o antigo templo de Netuno. Dando a volta é possível ver os vestígios do antigo templo na parte posterior do edifício.

Passar pelas colunas gigantescas da entrada e se deparar com aquela cúpula colossal é uma experiência única. No topo há um buraco a céu aberto, com oito metros de diâmetro que se abre para o céu. A cúpula é perfeita, com exatamente 43,3 metros de altura por 43,3 metros de largura. Ali se encontra o túmulo de personagens ilustres como o artista renascentista Rafael e os reis Umberto I e Vittorio Emanuele II.

Interior do panteão, mostrando o olho pelo qual o Sol inunda a cúpula.

Em seguida ao Panteão, fui caminhando até o Coliseu para finalmente conhecê-lo. O legal de Roma é que tudo é relativamente perto de tudo, portanto se você for jovem ou disposto, pode fazer tudo a pé (eu mesmo peguei o ônibus duas vezes em toda a estadia, um para ir da estação de trens até a casa de minha prima e outro para voltar da casa de minha prima até a estação novamente). Além do quê, é uma cidade magnífica. Cada passeio vale a pena.

Antes dei uma passada em no Largo di Torre Argentina, que não tem nada a ver com os nossos muy queridos vizinhos, mas por causa de uma torre que fazia parte de uma residência antiga, de um tal senhor Johannes Burckardt, nativo de Estrasburgo, cujo nome latino é Argentoratum. O Sr. Burckardt gostava de denominar-se argentinus, e daí o nome pegou.

O largo é legal porque contém várias ruínas de templos romanos (um aspecto genial de Roma é que o tempo todo você dá de cara com alguma ruína romana. Ruína para cá, ruína para lá, a cidade está em ruínas!).

Lá, além dos templos, atualmente é um santuário de gatos, que vagabundeiam por Roma desde os tempos mais remotos.

Um dos templos arruinados de Largo di Torre Argentina

Prosseguindo o passeio dei uma parada no monte Capitolino, uma das sete colinas de Roma, para ter uma vista dos fóruns de cima. No alto dessa colina fica a prefeitura de Roma, e atrás há um miradouro com uma vista magnífica para os fóruns romanos.

É gostoso caminhar por Roma para absorver a alma desta cidade. Como desde sempre é lotada de artistas de rua fazendo as coisas mais incríveis, sorveteiros vendendo os estupendos sorvetes italianos, pedintes (infelizmente faz parte),  etc. A cidade é barulhenta, vivaz, e imensamente bela. Não entenda barulhenta como pejorativo (ainda não chegamos em Nápoles), mas mais como alegre. Há uma aura diferente nesta cidade, algo especial.
O capitólio de Roma, sede da prefeitura.

Os fóruns romanos, vistos do miradouro do monte Capitolino.
À esquerda, em primeiro plano, ruínas do templo de Saturno.
Em seguida, desci a rua dos fóruns imperiais — que são diferentes do fórum romano — em direção ao Coliseu. Esta magnífica estrutura é estarrecedora. Eu acreditava que seria menor do que parece, mas é o contrário. Sua estrutura é tão sólida, tão maciça, que sobreviveu a inúmeros terremotos e guerras. É verdadeiramente um colosso, um auge da criatividade e tecnologia romana. Em outras palavras, eita povo admirável!


Entrada do Coliseu. Repare no tamanho das pessoas em relação ao edifício.

A fila para entrar percorre boa parte do andar térreo do Coliseu, e enquanto eu esperava pude admirar a solidez e tamanho das colunas que sustentam a estrutura. É uma coisa impressionante. Ademais, olhando todas aquelas arcadas, não pude deixar de lembrar de uma coisa curiosa.

A prostituição sempre foi muito difundida na Roma Antiga. No Coliseu, as prostitutas costumavam ficar embaixo dos arcos, esperando clientes. Durante os intervalos dos jogos, se podia contratar uma delas e divertir-se ali mesmo, sob os arcos do Coliseu. Daí surgiu o termo "fornicar", que veio do latim, fornicare, pois arco, nessa língua, é fornix.

Entrando lá, olhando para cima e vendo o que sobrou daquelas arquibancadas que um dia hospedaram mais de 50.000 pessoas, pensei como se sentiria um gladiador ao chegar na arena e ser saudado por esta multidão eufórica, ou como se sentiria apavorado um escravo ou cristão que fosse arrastado até lá para a sua morte truculenta.

Interior do Coliseu. Abaixo da arena estão os alçapões de onde as feras eram içadas.
A palavra "arena" vem exatamente daí, pois o chão do Coliseu era coberto de areia, arena, em latim, para absorver o sangue dos feridos e mortos e também para esconder os alçapões de onde eram alçados os animais e bestas selvagens que eram caçados pelos gladiadores ou que atacavam os jogadores.

A visita serviu também para mostrar-me como certos hábitos nunca mudam. Desde os tempos de Roma, 2000 anos atrás, há gente que rabisca as paredes e depreda o patrimônio público. No Coliseu, muito do revestimento de mármore foi rabiscado por espectadores, que escreviam os nomes dos seus gladiadores preferidos, desenhavam lutas memoráveis, entre outras coisas.

Rabiscos mostrando uma luta entre gladiadores.

Saí do edifício sempre olhando para atrás, pois não tem como não encher os olhos. É uma coisa estupenda! Bem que havia escrito Beda (672 - 735):

"Quamdiu stabit Colyseus stabit et Roma;
cum cadet Colyseus cadet et Roma;
cum cadet Roma cadet et mundus."

Ou seja, "Enquanto existir o Coliseu, existirá Roma; quando cair o Coliseu, cairá Roma; quando cair Roma, cairá o mundo".

Em seguida a visita deste ícone romano, segui para um dos lugares mais surpreendentes que já encontrei. É o cemitério dos capuchinhos. Este fica no convento dos frades capuchinhos em Roma. Trata-se de uma cripta com sete capelas, cada uma decorada de maneira mais macabra que a outra.

A morte é sempre um tema presente no cristianismo e nas ordens religiosas, e para lembrarem-se da brevidade desta vida, os frades construíram em 1624 a cripta, usando os ossos de mais de 4000 capuchinhos mortos, organizando-os nas maneiras mais inusitadas pelas paredes.

Ao contrário do que foi feito nas catacumbas de Paris, em que muros de ossos foram erguidos para conter a ossada inaproveitável atrás, os frades usaram os ossos para organizá-los em maneira artística, criando floreios, guirlandas, voltas e molduras, bonitas mas muito tétricas.

A composição em si é bastante impactante e muito assustadora. Na primeira capela, ao fundo dois esqueletos seguram ampulhetas, enquanto que, pendurado no topo, um anjo cadavérico tem em uma mão uma foice de ossos e na outra uma balança, como para nos lembrar de que nossa morte é certa, e nosso julgamento também. A capela é emoldurada por esqueletos de frades em oração, vestidos como monges, o que causava muita impressão. Alguns ainda conservavam alguns fios de barba presos às mandíbulas e aos zigomas.


Interior da primeira capela.
Foto tirada da internet.

O curioso é que, se você não nota que tudo é feito de ossos, é realmente muito bonito. Mas pouco a pouco você repara que os candelabros são de vértebras, que os frisos são de mandíbulas e que as guirlandas são de clavículas. Pelas paredes, caveiras aladas com asas de escápulas borboleteavam em todas as direções, fixando o visitador com suas órbitas vazias, lembrando-o de que ele também vai seguir pelo mesmo caminho.

Em uma das capelas, cinco nichos de crânios emolduram mais esqueletos de frades vestidos, uns deitados em sono eterno, outros rezando. No tímpano do nicho do meio, uma ampulheta alada, lembrando que o tempo passa.

Ampulheta de ossos sobre o tímpano do nicho. O tempo voa.
Foto tirada da internet.
Há somente uma capela que não possui nada decorado com ossos, que é onde os frades realizam as suas missas do dia de finados. O local escolhido para esta celebração não podia ser mais adequado.

Gostei muito desta visita, nunca havia visto nada assim e achei tudo muito fascinante. Infelizmente não se podia tirar fotos da cripta, portanto postei fotos retiradas da internet. Acho que a quem vai a Roma, isto tem que ser um must. Não pode deixar de visitar, pois dificilmente irá encontrar algo tão diferente, interessante, bizarro e macabro.

Esqueleto de frade meditando ominosamente.
Foto tirada da internet.
Terminei o meu dia caminhando até a Piazza di Spagna, com a graciosa igreja de Trinità dei Monti no topo e suas típicas escadarias, transbordantes de flores (embora estivessem todas em botões ainda), lotadas de gente tomando sol, conversando e sendo assediadas por vendedores de suvenires e bugigangas.

Cada lugar de Roma é de tirar o fôlego, sejam estes pontos monumentais, como a Piazza di Spagna e o monumento a Vittorio Emanuele II, ou pracinhas e ruelas escondidas. Tudo tem o seu charme e a sua beleza, fazendo desta uma cidade para se descobrir nos mínimos detalhes.

Escadarias de Piazza di Spagna
Todas as noites em Roma foram deliciosamente tépidas. Ao deitar na cama fiquei ouvindo o burburinho dos restaurantes lá em baixo. Adoro o som das pessoas conversando e dos talheres tinindo. De vez em quando, um acordeonista começava alguma música romântica. A cidade é realmente maravilhosa. E ainda havia muito para ver.

domingo, 16 de junho de 2013

Roma: Urbs Æterna I

Depois da curta estadia em Milão, foi hora de seguir para a cidade onde todos os caminhos convergem: Roma. Peguei o mais novo sistema de trens da Itália, o Freccia Rossa, trens de altíssima velocidade que viajam a 300 km por hora. Seu slogan é "o metrô da Itália", pois esses trens param em todas as cidades importantes do país, levando algumas horas para chegar de uma à outra.

Para quem nunca tinha viajado de trem, achei muito legal! É interessante notar como o sistema não mudou nada desde que o trem foi inventado. Ele pára na estação, as pessoas descem ou entram, e de vez em quando passa o fiscal para furar o seu bilhete. Exatamente como nos filmes que retratavam viagens ainda em maria-fumaça, mas desta vez era uma possante máquina ultra moderna com design extremamente arrojado pintada de vermelho sangue que estava parada na plataforma. Parece que os italianos têm uma fixação com a cor vermelha e velocidade.

Cheguei em Roma, então, pouco depois. Peguei o ônibus e segui para a casa da minha anfitriã, uma prima distante, de modo que foi bom para apertar laços com a família. Fui muito bem recebido e hospedado.

Roma tem um clima diferente. Já começa a despontar o irreverente sol típico do sul da Itália. Se em Milão ele era amarelo, aqui tudo adquire um tom quase laranja. Cheguei ao entardecer, a tempo de vê-lo se ponto atrás da cúpula de São Pedro. Uma das cenas mais bonitas que já vi!

Primeira impressão de Roma.
Naquela mesma noite fui convidado a ver um show da Marisa Monte, adorei. Fiquei decepcionado apenas ao descobrir como os shows de brasileiros na Europa são tão mais baratos que no próprio Brasil. Não sei sinceramente o porquê disso, talvez a estrutura de shows no Brasil seja muito mais cara, o que encarece o ingresso, não sei se o governo dos países europeus subsidia eventos culturais ou se é falta de patriotismo mesmo...

O dia seguinte foi o dia de começar os passeios. Descobri que exatamente na manhã seguinte à minha chegada o papa iria dar uma das suas audiências semanais, na praça de São Pedro. Achei legal a idéia de vê-lo de perto e decidi ir, afinal, além de tudo, atualmente o papa é uma das maiores atrações de Roma. A minha prima, que mora há vários meses em Roma, conhecia todos os macetes e me indicou o lugar preciso na praça onde eu deveria me posicionar para ver o papa.

O papa sempre faz o mesmo trajeto, e há um ponto da praça em que ele passa duas vezes. Essa dica preciosa eu deixo no mapinha abaixo. Para chegar lá na frente, porém, é preciso ter um convite, que é conseguido gratuitamente não sei onde. O que me disseram é que, se você chegar bem cedo na praça (entre 7 e 8 horas, eu acho, porque às 9 ela já estava quase cheia), há sempre freiras perambulando e elas sempre têm convites sobrando. É só pedir simpaticamente que elas dão.

Tentem conseguir estes lugares se forem a alguma audiência.
O que aconteceu foi que eu cheguei mais tarde do que gostaria e a praça já estava quase cheia. Após passar pela rigorosa segurança eu entrei e vi que não havia mais chance de encontrar qualquer freira. Entretanto fui simplesmente seguindo o fluxo de pessoas, uma técnica muito eficaz quando se está perdido. Quando me dei conta, cheguei exatamente no lugar que eu queria! E não havia como avançar mais, então fiquei ali, parado, esperando que começasse. Havia uma quantidade inacreditável de pessoas, todas espremendo-se para chegar mais perto. Quando finalmente ligaram os telões, a primeira imagem que apareceu foi uma vista aérea da praça. Estava simplesmente lotada. Olhei para trás e vi um mar ondulante de cabeças humanas. Se eu quisesse voltar, simplesmente não teria como fazer isso.

A praça de São Pedro lotada de fiéis e curiosos.
 Depois de alguns vários minutos de espera, ouvi que começava uma ovação na parte anterior da praça. O papa finalmente tinha chegado. Olhei para os telões e lá estava ele, todo sorridente em meio ao povo, deslocando-se num papamóvel aberto entre palmas e gritos de saudação. Quando ele passou na minha frente, a no máximo 5 metros, uma mulher entregou o seu filho para ser beijado, portanto ele parou segurou a criança, beijou-a, benzeu-a e devolveu à mãe, tudo isso a cinco metros de mim. Nisso eu tive a oportunidade de vê-lo bem. Ele tem uns olhos muitos bondosos! Fiquei tempo demais olhando e quando fui bater a foto ele se virou, mas pelo menos consegui uma, mesmo que seja do pontífice de costas!

O popular papa Francisco I.
Depois disso seguiu o percurso, sempre saudado pela população eufórica. Minutos depois ele novamente passou pelo mesmo lugar, como me foi sabiamente indicado, antes de sentar-se em frente à basílica e começar a ler o evangelho.

Quando isso aconteceu a gendarmeria do Vaticano chegou para mandar todo mundo que estava em pé no corredor para trás, pois teoricamente aquela área era só para os que tinham o convite, embora ninguém me tivesse pedido. Mas o importante já estava feito. Mais para trás fiquei ouvindo tudo até o fim. Foi tudo muito emociante, e sua popularidade é incrível. Acho que ele fará ótimas coisas pela Igreja Católica.

Fui almoçar e naquela mesma tarde voltei ao Vaticano para ver a capela Sistina. Eu tinha a intensão de fazer todo o Vaticano logo para depois me dedicar unicamente à Roma. Nessas horas é que eu percebo como sou principiante nesse negócio de viagens. Não percebi que o ingresso da capela é o mesmo dos Museus do Vaticano, que eu pretendia fazer também, de modo que comprei o ingresso, atravessei todas as vastidões dos Museus correndo para chegar à capela com folga bastante para apreciar tudo antes que fechasse. Outro dia tive de pagar de novo o ingresso para ver os Museus novamente.

Quando entrei na capela, posso dizer, é realmente de tirar o fôlego. Não tenho como descrever a emoção de encontrar, pessoalmente, todas aquelas obras de arte estupendas, que são capa de todos os livros de arte. Fiquei horas lá dentro, olhando para cima como um abobalhado, simplesmente deslumbrado com a beleza de todos aqueles afrescos. 

Me chamou a atenção de maneira especial o afresco da criação dos astros, pois Deus foi representado de maneira particularmente imponente ali, e Dafne, a mais famosa das sabinas pintadas por Michelangelo, que é muito mais bela do que em qualquer representação que eu já tenha visto.

Uma coisa engraçada desses afrescos é que, em cada um dos personagens havia um veuzinho que convenientemente saía de algum lugar para cobrir-lhes as partes íntimas. Isto é porque Michelangelo os pintou originalmente nus, mas depois a obra foi julgada obscena demais e o papa mandou que cobrissem todos eles. Algumas semanas mais tarde, em Nápoles, eu teria a oportunidade de ver um rascunho do Juízo Final, em que tudo está como era originalmente.

Descobri que vale muito a pena chegar na capela no final da tarde, pois ela fica muito mais vazia, dando a chance de apreciar as obras em paz, sem uma multidão de turistas passando para lá e para cá e os seguranças gritando o tempo todo para os desavisados e espertalhões que não se pode bater fotos na capela. Além do quê, é possível apreciar até mesmo os belíssimos mosaicos do piso, feito em mármores coloridos. Fui o último a deixar a capela.

A manhã na praça de São Pedro tinha sido muito mais longa do que eu esperava, então nesse dia eu não fiz muitas coisas. Voltei para casa fazendo antes uma caminhada pelo lungotevere, a beira-rio de Roma, até a Ilha Tiberina. A luz do sol se pondo estava especial (vocês vão se cansar de ler eu louvando o sol da Itália, mas só estando lá para me entender. Não é à toa que a maior parte dos pintores europeus fazia longas viagens por este país maravilhoso, em busca de cores e inspiração). Os raios do sol poente penetravam entre as folhas dos plátanos, que por sua vez se projetavam em ramos cada vez mais finos em direção ao rio, dando a ilusão de que se caminha por uma galeria de luz. Foi uma das coisas mais lindas que vi na Itália.

Por-do-sol no lungotevere. Nenhuma câmera podia captar a beleza daquele momento.
Após o jantar decidi ir caminhando até a Fontana di Trevi. Vi-a toda iluminada, foi muito lindo. Uma horda de turistas e casais cercava a fonte. No fundo, aos pés de Netuno e todas aquelas criaturas mitológicas, jazia um reluzente mar de moedas. Particularmente, não gosto dessa mania de jogar moedas na fonte. Especialmente porque agora ninguém mais consegue ver uma bacia sem jogar uma moeda dentro. Eu vejo por tudo, até em rios e lagos, e pior que não é nem por superstição. Mas a fontana é maravilhosa, de qualquer maneira, com ou sem moedas.

A romântica Fontana di Trevi
Na volta quis ir até a  Piazza Navona (simplesmente amo caminhar pelas cidades à noite). No meio do caminho encontrei um artista de rua que vendia aquarelas esplêndidas. Eram todas muito bonitas e extremamente bem feitas. Uma, em especial, chamou minha atenção por retratar o lungotevere exatamente na mesma hora e com a mesma luz que eu vi poucas horas antes. Ainda tinha detalhes como a cúpula do Vaticano, o castelo Sant'Angelo e as folhas dos plátanos. Fiquei deslumbrado. O artista era um tipo muito simpático, romeno, que pintava aquarelas desde os doze anos de idade e agora vivia viajando pela Itália e pintando suas aquarelas e vendendo-as nos pontos turísticos. Não eram exatamente caras, mas para um mochileiro e estudante como eu, comprar qualquer coisa acima dos 20,00 requer um mínimo de reflexão. Mas no final eu comprei, pois ainda estava enfeitiçado pelo espetáculo do fim da tarde.

Quando cheguei na Piazza Navona, eis que encontro um mar de barraquinhas de artistas de rua, todos vendendo exatamente as mesmas aquarelas que o romeno vendia. Passei de um em um olhando, mas todas eram mais ou menos iguais, e todos os vendedores eram igualmente equipados com pincéis e panos sujos de tinta. Poucas vezes senti tanta raiva de alguém. Eu detesto comprar coisas falsas. Toda aquela história de artista-itinerante-que-pinta-desde-os-doze-anos-de-idade era pura balela. Eu havia comprado uma bela falsificação de não sei qual pintura. Chegando em casa, com boa luz, notei que se tratava evidentemente de uma impressão. Confesso que até o final desta viagem pela Itália eu compreendi porque os europeus são tão antipáticos aos extracomunitários, e obviamente comecei a ficar esperto para esse tipo de coisa.

É claro que eu não ia deixar que um falso artista estragasse um dia tão especial, então, como se diz em italiano, ho lasciato perdere e simplesmente voltei para casa, deitei na cama e dormi para um novo dia cheio de novidades.