domingo, 16 de junho de 2013

Roma: Urbs Æterna I

Depois da curta estadia em Milão, foi hora de seguir para a cidade onde todos os caminhos convergem: Roma. Peguei o mais novo sistema de trens da Itália, o Freccia Rossa, trens de altíssima velocidade que viajam a 300 km por hora. Seu slogan é "o metrô da Itália", pois esses trens param em todas as cidades importantes do país, levando algumas horas para chegar de uma à outra.

Para quem nunca tinha viajado de trem, achei muito legal! É interessante notar como o sistema não mudou nada desde que o trem foi inventado. Ele pára na estação, as pessoas descem ou entram, e de vez em quando passa o fiscal para furar o seu bilhete. Exatamente como nos filmes que retratavam viagens ainda em maria-fumaça, mas desta vez era uma possante máquina ultra moderna com design extremamente arrojado pintada de vermelho sangue que estava parada na plataforma. Parece que os italianos têm uma fixação com a cor vermelha e velocidade.

Cheguei em Roma, então, pouco depois. Peguei o ônibus e segui para a casa da minha anfitriã, uma prima distante, de modo que foi bom para apertar laços com a família. Fui muito bem recebido e hospedado.

Roma tem um clima diferente. Já começa a despontar o irreverente sol típico do sul da Itália. Se em Milão ele era amarelo, aqui tudo adquire um tom quase laranja. Cheguei ao entardecer, a tempo de vê-lo se ponto atrás da cúpula de São Pedro. Uma das cenas mais bonitas que já vi!

Primeira impressão de Roma.
Naquela mesma noite fui convidado a ver um show da Marisa Monte, adorei. Fiquei decepcionado apenas ao descobrir como os shows de brasileiros na Europa são tão mais baratos que no próprio Brasil. Não sei sinceramente o porquê disso, talvez a estrutura de shows no Brasil seja muito mais cara, o que encarece o ingresso, não sei se o governo dos países europeus subsidia eventos culturais ou se é falta de patriotismo mesmo...

O dia seguinte foi o dia de começar os passeios. Descobri que exatamente na manhã seguinte à minha chegada o papa iria dar uma das suas audiências semanais, na praça de São Pedro. Achei legal a idéia de vê-lo de perto e decidi ir, afinal, além de tudo, atualmente o papa é uma das maiores atrações de Roma. A minha prima, que mora há vários meses em Roma, conhecia todos os macetes e me indicou o lugar preciso na praça onde eu deveria me posicionar para ver o papa.

O papa sempre faz o mesmo trajeto, e há um ponto da praça em que ele passa duas vezes. Essa dica preciosa eu deixo no mapinha abaixo. Para chegar lá na frente, porém, é preciso ter um convite, que é conseguido gratuitamente não sei onde. O que me disseram é que, se você chegar bem cedo na praça (entre 7 e 8 horas, eu acho, porque às 9 ela já estava quase cheia), há sempre freiras perambulando e elas sempre têm convites sobrando. É só pedir simpaticamente que elas dão.

Tentem conseguir estes lugares se forem a alguma audiência.
O que aconteceu foi que eu cheguei mais tarde do que gostaria e a praça já estava quase cheia. Após passar pela rigorosa segurança eu entrei e vi que não havia mais chance de encontrar qualquer freira. Entretanto fui simplesmente seguindo o fluxo de pessoas, uma técnica muito eficaz quando se está perdido. Quando me dei conta, cheguei exatamente no lugar que eu queria! E não havia como avançar mais, então fiquei ali, parado, esperando que começasse. Havia uma quantidade inacreditável de pessoas, todas espremendo-se para chegar mais perto. Quando finalmente ligaram os telões, a primeira imagem que apareceu foi uma vista aérea da praça. Estava simplesmente lotada. Olhei para trás e vi um mar ondulante de cabeças humanas. Se eu quisesse voltar, simplesmente não teria como fazer isso.

A praça de São Pedro lotada de fiéis e curiosos.
 Depois de alguns vários minutos de espera, ouvi que começava uma ovação na parte anterior da praça. O papa finalmente tinha chegado. Olhei para os telões e lá estava ele, todo sorridente em meio ao povo, deslocando-se num papamóvel aberto entre palmas e gritos de saudação. Quando ele passou na minha frente, a no máximo 5 metros, uma mulher entregou o seu filho para ser beijado, portanto ele parou segurou a criança, beijou-a, benzeu-a e devolveu à mãe, tudo isso a cinco metros de mim. Nisso eu tive a oportunidade de vê-lo bem. Ele tem uns olhos muitos bondosos! Fiquei tempo demais olhando e quando fui bater a foto ele se virou, mas pelo menos consegui uma, mesmo que seja do pontífice de costas!

O popular papa Francisco I.
Depois disso seguiu o percurso, sempre saudado pela população eufórica. Minutos depois ele novamente passou pelo mesmo lugar, como me foi sabiamente indicado, antes de sentar-se em frente à basílica e começar a ler o evangelho.

Quando isso aconteceu a gendarmeria do Vaticano chegou para mandar todo mundo que estava em pé no corredor para trás, pois teoricamente aquela área era só para os que tinham o convite, embora ninguém me tivesse pedido. Mas o importante já estava feito. Mais para trás fiquei ouvindo tudo até o fim. Foi tudo muito emociante, e sua popularidade é incrível. Acho que ele fará ótimas coisas pela Igreja Católica.

Fui almoçar e naquela mesma tarde voltei ao Vaticano para ver a capela Sistina. Eu tinha a intensão de fazer todo o Vaticano logo para depois me dedicar unicamente à Roma. Nessas horas é que eu percebo como sou principiante nesse negócio de viagens. Não percebi que o ingresso da capela é o mesmo dos Museus do Vaticano, que eu pretendia fazer também, de modo que comprei o ingresso, atravessei todas as vastidões dos Museus correndo para chegar à capela com folga bastante para apreciar tudo antes que fechasse. Outro dia tive de pagar de novo o ingresso para ver os Museus novamente.

Quando entrei na capela, posso dizer, é realmente de tirar o fôlego. Não tenho como descrever a emoção de encontrar, pessoalmente, todas aquelas obras de arte estupendas, que são capa de todos os livros de arte. Fiquei horas lá dentro, olhando para cima como um abobalhado, simplesmente deslumbrado com a beleza de todos aqueles afrescos. 

Me chamou a atenção de maneira especial o afresco da criação dos astros, pois Deus foi representado de maneira particularmente imponente ali, e Dafne, a mais famosa das sabinas pintadas por Michelangelo, que é muito mais bela do que em qualquer representação que eu já tenha visto.

Uma coisa engraçada desses afrescos é que, em cada um dos personagens havia um veuzinho que convenientemente saía de algum lugar para cobrir-lhes as partes íntimas. Isto é porque Michelangelo os pintou originalmente nus, mas depois a obra foi julgada obscena demais e o papa mandou que cobrissem todos eles. Algumas semanas mais tarde, em Nápoles, eu teria a oportunidade de ver um rascunho do Juízo Final, em que tudo está como era originalmente.

Descobri que vale muito a pena chegar na capela no final da tarde, pois ela fica muito mais vazia, dando a chance de apreciar as obras em paz, sem uma multidão de turistas passando para lá e para cá e os seguranças gritando o tempo todo para os desavisados e espertalhões que não se pode bater fotos na capela. Além do quê, é possível apreciar até mesmo os belíssimos mosaicos do piso, feito em mármores coloridos. Fui o último a deixar a capela.

A manhã na praça de São Pedro tinha sido muito mais longa do que eu esperava, então nesse dia eu não fiz muitas coisas. Voltei para casa fazendo antes uma caminhada pelo lungotevere, a beira-rio de Roma, até a Ilha Tiberina. A luz do sol se pondo estava especial (vocês vão se cansar de ler eu louvando o sol da Itália, mas só estando lá para me entender. Não é à toa que a maior parte dos pintores europeus fazia longas viagens por este país maravilhoso, em busca de cores e inspiração). Os raios do sol poente penetravam entre as folhas dos plátanos, que por sua vez se projetavam em ramos cada vez mais finos em direção ao rio, dando a ilusão de que se caminha por uma galeria de luz. Foi uma das coisas mais lindas que vi na Itália.

Por-do-sol no lungotevere. Nenhuma câmera podia captar a beleza daquele momento.
Após o jantar decidi ir caminhando até a Fontana di Trevi. Vi-a toda iluminada, foi muito lindo. Uma horda de turistas e casais cercava a fonte. No fundo, aos pés de Netuno e todas aquelas criaturas mitológicas, jazia um reluzente mar de moedas. Particularmente, não gosto dessa mania de jogar moedas na fonte. Especialmente porque agora ninguém mais consegue ver uma bacia sem jogar uma moeda dentro. Eu vejo por tudo, até em rios e lagos, e pior que não é nem por superstição. Mas a fontana é maravilhosa, de qualquer maneira, com ou sem moedas.

A romântica Fontana di Trevi
Na volta quis ir até a  Piazza Navona (simplesmente amo caminhar pelas cidades à noite). No meio do caminho encontrei um artista de rua que vendia aquarelas esplêndidas. Eram todas muito bonitas e extremamente bem feitas. Uma, em especial, chamou minha atenção por retratar o lungotevere exatamente na mesma hora e com a mesma luz que eu vi poucas horas antes. Ainda tinha detalhes como a cúpula do Vaticano, o castelo Sant'Angelo e as folhas dos plátanos. Fiquei deslumbrado. O artista era um tipo muito simpático, romeno, que pintava aquarelas desde os doze anos de idade e agora vivia viajando pela Itália e pintando suas aquarelas e vendendo-as nos pontos turísticos. Não eram exatamente caras, mas para um mochileiro e estudante como eu, comprar qualquer coisa acima dos 20,00 requer um mínimo de reflexão. Mas no final eu comprei, pois ainda estava enfeitiçado pelo espetáculo do fim da tarde.

Quando cheguei na Piazza Navona, eis que encontro um mar de barraquinhas de artistas de rua, todos vendendo exatamente as mesmas aquarelas que o romeno vendia. Passei de um em um olhando, mas todas eram mais ou menos iguais, e todos os vendedores eram igualmente equipados com pincéis e panos sujos de tinta. Poucas vezes senti tanta raiva de alguém. Eu detesto comprar coisas falsas. Toda aquela história de artista-itinerante-que-pinta-desde-os-doze-anos-de-idade era pura balela. Eu havia comprado uma bela falsificação de não sei qual pintura. Chegando em casa, com boa luz, notei que se tratava evidentemente de uma impressão. Confesso que até o final desta viagem pela Itália eu compreendi porque os europeus são tão antipáticos aos extracomunitários, e obviamente comecei a ficar esperto para esse tipo de coisa.

É claro que eu não ia deixar que um falso artista estragasse um dia tão especial, então, como se diz em italiano, ho lasciato perdere e simplesmente voltei para casa, deitei na cama e dormi para um novo dia cheio de novidades.

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