Nas últimas semanas fiz uma incursão pelas terras italianas, o paraíso de Dante. Agora vamos por partes, cidade por cidade.
A primeira cidade que fui visitar foi Milão, que fica a uma hora de carro de Lugano, mais ou menos. Meus tios fizeram a gentileza de me levar e fizemos um pequeno passeio pela cidade. A primeira coisa que fomos visitar foi um monumento bastante novo e que tem feito muito sucesso ultimamente na Piazza degli Affari, cujo nome é L.O.V.E., embora seja comumente referido com "Il Dito", O Dedo, em italiano. Trata-se de uma grande estátua de 4,60 m de altura esculpida em mármore de Carrara que representa uma mão estendida na típica saudação fascista, mas com todos os dedos removidos, como se consumidos pelo tempo, exceto o do meio. A escultura, de autoria do artista italiano Maurizio Cattelan, foi sugestivamente colocada na frente do prédio da Bolsa de Milão. A estátua foi inaugurada em 2010 pela prefeita de Milão e a previsão é que ficasse exposta por duas semanas. Mas, como aconteceu com a Torre Eiffel, a obra caiu no gosto popular e lá ficou definitivamente.
Continuando o passeio, fomos à igreja de Santa Maria em San Satiro, uma belíssimo exemplo da criatividade dos renascentistas. A igreja, projetada por Bramante, foi construída em um terreno pequeno, pois a cidade já existia ao redor, a partir de 1470. Se como não havia espaço, Bramante conseguiu criar um nicho atrás do altar que aos olhos de quem entra dá a impressão de que a nave continua por vários metros ainda, quando na verdade não tem mais de um metro de profundidade. É surpreendente! Recomendo que você entre na igreja e olhe para o final da nave. Depois, sem olhar mais para esta direção, caminhe até o lado do altar e olhe de novo. O choque de descobrir o efeito é muito agradável. Só é uma pena que não se podia tirar fotos dentro da igreja, mas de qualquer jeito deixo aqui uma imagem retirada da internet.
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| Nave falsa na igreja de Santa Maria em San Satiro, notável exemplo da criatividade de Bramante. |
Em seguida, fomos em direção ao Duomo, o coração da cidade. Antes, porém, nos detivemos na Piazza degli Mercanti, a praça dos mercadores. A praça é uma seqüência de abóbadas medievais que não tem muita graça, a menos que você saiba de um segredo sobre ela. Infelizmente deixará de ser segredo porque irei contar agora.
Como eu falei, a praça é composta por abóbadas. O efeito funciona melhor nas duas abóbadas mais distantes do Duomo. Se você se coloca olhando para um dos ângulos da parede, que nem criança de castigo nas escolas de antigamente, e outra pessoa se coloca na mesma posição no canto oposto, ambas podem se conversar, mesmo sussurrando, que se ouvirão perfeitamente. E o que é mais impressionante é que qualquer um que estiver no meio do caminho não ouvirá absolutamente nada! Eu acredito que a tensão a que os arcos estão sujeitos é tão grande que a menor das vibrações pode ser transmitida por meio deles. Não faço idéia se há algum fundamento científico no meu argumento, mas que os arcos funcionam, isto é verdade. Eu fico imaginando quantas pessoas usaram estes arcos para falar das pessoas que passam pela praça sem que ninguém mais pudesse ouvi-los. E o bom é que aparentemente ninguém ou muito poucos sabem disso, pois não havia vivalma tentando fazer o mesmo. Portanto, guardem segredo!!!
Saindo da praça encontramos do outro lado da rua uma mostra de design brasileiro, no coração de Milão, em um palacete de três andares. Fiquei muito satisfeito de ver como o Brasil está se apresentando bem ao mundo ultimamente, parece que aquela imagem de país de terceiro mundo está passo a passo desaparecendo, sendo substituída por a de um pais forte e em pleno crescimento. Depois desta pausa para ver o que estamos produzindo de bom no design, fomos finalmente para o símbolo maior da cidade de Milão, o magnífico Duomo, a catedral da cidade.
| O Duomo de Milão. |
A construção é imensa, uma das maiores igrejas que já entrei, toda em mármore rosa. Por sorte tinham acabado de limpar a fachada principal, que resplandecia ao sol. A igreja é em estilo gótico, e a filosofia da arquitetura gótica era fazer o indivíduo sentir-se minúsculo perante a grandiosidade de Deus. Isto se sente claramente no Duomo, quando você vê aquelas abóbadas que chegam a 45 metros de altura, aquelas colunas largas como árvores e aqueles vitrais reluzentes e multicoloridos. É de deixar boquiaberto. O espaço interno é uma coisa colossal, parece uma caverna gigantesca sustentada por pilares colossais. O piso é todo em mármores coloridos, que por terem composições diferentes possuem naturalmente durezas diferentes, o que faz com que o tempo consumisse mais uns do que outros, criando pequenos desníveis no pavimento.
Outra coisa interessante de perceber é o calendário solar que tem na entrada do Duomo, onde a luz do Sol entra por um buraquinho no teto e é projetada numa linha desenhada no chão onde estão os signos do zodíaco. Dependendo da época o sol incide sobre o signo correspondente ao período do ano.
Seguindo o passeio, fomos visitar um dos cartões postais da cidade, a Galeria Vittorio Emanuele II, ao lado da praça do Duomo. A galeria é linda, e para quem gosta de comprar roupas e tem dinheiro deve ser um paraíso. O que fiz lá foi algo fundamental e muito mais importante que comprar roupas, que é girar com o calcanhar sobre os testículos de um touro desenhado no chão. Dizem que isto dá sorte, e por isto há uma fila de gente para fazer isto (a maioria, obviamente, são turistas). O pobre touro já nem mais testículos tem, virou um boi de tanto que giraram em cima das suas partes. Agora o que se vê é um buraco no lugar das bolas.
| O touro onde vocês girarão quando vierem a Milão. |
Uma coisa interessante da Galeria é que ali se encontra o único hotel 7 estrelas da Europa, e um dos dois existentes no mundo (o outro se encontra em Dubai). Aos que tiverem a curiosidade de ver, fica imediatamente acima da loja da Prada (é possível ver a logo nas janelas). O Hotel Seven Stars Galleria tem capacidade para um público limitadíssimo
Terminado o passeio, fui levado para a casa dos meus anfitriões que me hospedariam em Milão.
Eles me levaram para jantar numa cidade vizinha chamada Vigevano. A cidade não é tão grande, mas é muito bonita. Nela há uma praça que é considerada um dos mais belos exemplos da arquitetura renascentista. A praça é toda cercada por arcadas, sendo fechada por um lado pela igreja que me pareceu bastante barroca na aparência, e o que tinha de interessante era a fachada côncava. Ao lado da praça está a torre do castelo da cidade.
Vigevano tem uma grande tradição na fabricação de calçados, sendo a qualidade dos seus calçados renomada. Aqui, disseram-me, foi inventado o salto alto de bico fino, nos anos 60, quando conseguiram inventar uma técnica para deixar o salto fino e resistente. Em Vigevano também eram feitos os famosos sapatos vermelhos do papa Bento XVI, rejeitados pelo atual papa Francesco. Foi um passeio gostoso.
| A praça renascentista de Vigevano. |
| A torre do castelo, vista da praça. Com esta lua, é praticamente o minarete de uma mesquita. |
No dia seguinte eu acordei cedo e fui direto ao Duomo, desta vez para subir nos terraços, de onde se tem uma vista panorâmica da cidade inteira.
Na entrada, porém, uma surpresa desagradável. Eu tinha em minha mochila um canivete bastante afiado para descascar frutas, e me lembrei disto somente quando um dos soldados que guardam a entrada foi olhar minha mochila. Eu avisei a ele e mostrei o canivete, mas ainda assim eu tive de retirar tudo de dentro, passar no detector de metais e ser revistado. Perguntei se eu não poderia deixar com eles o instrumento e retirá-lo na saída e eles consentiram.
Subi ao topo do Duomo, e de fato a vista de lá de cima é maravilhoso. Perdido em uma verdadeira floresta de pináculos e estátuas, eu só podia observar a capital lombarda que se estendia em todas as direções até os limites da visão.
| Milão das alto do Duomo. Os santos nos pináculos abençoam a cidade. |
Ao descer, entretanto, me retiveram de novo. Disseram-me para esperar num canto enquanto chamavam um oficial. Ele pediu meus documentos, um endereço, e confiscou o meu canivete. Eu achei que ia passar o primeiro dia de viagem numa delegacia ou até se preso, então, apesar do canivete ser bom, foi melhor perdê-lo do que passar por toda uma situação desagradável.
Passado o susto do Duomo, fui caminhando até o Castelo Sforzesco, a fortaleza da família Sforza, nobres milaneses. O castelo parece realmente inexpugnável, foi primeiro que eu vi na Europa que parece realmente com uma fortaleza, além do fato de ser enorme. Infelizmente estava fechado o museu, então fiquei andando pelos pátios e em seguida fui embora.
| Fachada do Castello Sforzesco. |
| Um dos vários pátios do castelo. |
Desci até a igreja de Sant'Eustorgio (afinal o que mais tem na Itália é igreja). A igreja é relativamente simples, mas é gostoso procurar os detalhes. Lá estão guardadas as relíquias dos magos que vieram adorar o menino Jesus (quase toda a igreja importante na Itália tem uma relíquia. O Duomo de Milão supostamente conserva um dos pregos que prenderam Jesus à cruz).
Para terminar o dia, fomos jantar na região dos Navigli, o bairro noturno da cidade. Os navigli são canais escavados desde a idade média e que ligam Milão aos lagos de Como e Maggiore e o mar via rio Pó. É interessante que há só uma direção de fluxo de água em cada canal. Os dois que vêm do rio Ticino e Adda fluem na direção de Milão e os que saem da cidade fluem de volta para o Ticino, depois de percorrer por toda a cidade. Infelizmente os navigli foram quase todos aterrados no centro de Milão, pois se não a cidade deveria parecer um tipo de Amsterdã à italiana. De qualquer maneira, o bairro Navigli é muito bonito, um lugar perfeito para se namorar, ou mesmo para sair com os amigos, como faz a maior parte dos jovens milaneses.
| Naviglio Grande no fim da tarde, preparando-se para receber a horda de notívagos. |
Uma coisa que me chamou muito a atenção foi a quantidade de bondes que tem circulando em Milão. Bondes mesmo, elétricos e sobre trilhos. Milão, ainda nos anos 20, comprou vários bondes de São Francisco, EUA, e os colocou para girar pela cidade. Surpreendentemente eles ainda estão circulando, firmes e fortes. Os bondes são tão antigos que ainda têm, sobre as janelas, uma plaquinha escrito "vietato sputare", ou seja, "proibido cuspir"!
| "Proibido cuspir". Hábito muito em voga uns anos atrás. |
| Um bonde dos anos 20 pelas ruas de Milão. |

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