sábado, 13 de abril de 2013

Vale Verzasca: da Ponte Romana a 007

Hoje finalmente o Sol decidiu dar as caras, e então eu e meu tio fomos dar uma volta num vale perto de Locarno, na cabeceira do lago Maggiore, chamado vale Verzasca.

Nossa missão era chegar até uma ponte romana muito bela construída sobre o rio Verzasca. O vale é um local muito bonito e muito pitoresco. Já na entrada do vale há uma barragem imponente barragem, uma das mais altas da Suíça, com pelo menos 220 metros de altura.

Esta barragem ficou relativamente famosa por aparecer na primeira cena do filme filme 007 Contra GoldenEye (1995), quando o inesquecível Bond, James Bond, interpretado por Pierce Brosnan, chega com uma ridícula cordinha de dez metros à tiracolo e faz um salto de mais de duzentos metros barragem abaixo. Deixo o link desta cena mais abaixo para que possam conferir.

Embora pouca gente saiba que aquela cena foi rodada na Suíça e no vale Verzasca (afinal, no filme isto se passa em algum país soviético), até hoje tem um serviço de bungee jump lá, chamado justamente o bungee jump do 007. Este é o mais alto da Europa e um dos maiores do mundo, o que faz com que várias pessoas venham dos mais distantes cantos do globo especificamente para saltar nisso (tem louco para tudo). Eu particularmente gostaria de tentar, mas não foi desta vez.

O vale é estreito e muito bonito, coberto de florestas em todas as encostas. Estacionamos em uma aldeia chamada San Bartolomeo, que segue uma arquitetura típica da região. Lá as pedras são quase mais abundantes que as árvores. O solo é muito pouco profundo, e as rochas surgem por toda a parte. Se como são rochas sedimentares, são fáceis de serem quebradas de maneira relativamente regular, então as casas são construídas em pedra, do piso ao teto. Sim, não há telhas, mas placas de pedras sobrepostas. É incrível como aquilo se mantém de pé. Creio que deva ser uma estrutura que se sustente por si própria, apenas com uma simples estrutura de madeira para dar apoio.

Nesta vila há uma igreja que foi a primeira a chamar-me a atenção sobre aquele fato que expliquei no post anterior, aquele de por fora serem simples e por dentro serem belas e ricas. De fato, o exterior da igreja é quase espartano, desprovido de ornamentação mesmo na fachada. Já por dentro, encontramos afrescos maravilhosos, alguns do século XIV, estátuas, balaustradas em granitos coloridos, etc. É incrível que um artesão tenha vindo a um lugar tão distante para fazer obras tão belas (ou como trouxeram de lá debaixo estas estátuas e trabalhos em pedra pesadíssimos).

Disseram-me as igrejas são assim porque são relativamente recentes, e foram construídas depois do renascimento, o período áureo das artes, incluindo a arquitetura, na Itália. Quando o desenvolvimento finalmente chegou àquelas paragens, junto com uma condição financeira melhor, as igrejas já estavam construídas, e era mais fácil modificar o interior do que o exterior (depois, dentro dá muito menos manutenção do que fora). Assim, ficaram lindas por dentro e sem-graça por fora.

Continuando o passeio, subimos o vale por uma trilha tentando identificar as árvores do lugar      carvalhos, castanheiras, faias, bétulas...       e com direito a encontrar algumas ruínas simples. Fomos almoçar numa vila chamada Corippo, que é a menor cidade da Suíça. Tem apenas 12 habitantes! Corippo, como as cidadezinhas ao redor, é surreal. Toda construída em pedra cinzenta, na encosta da montanha, é um labirinto de ruazinhas e vielas estreitas que sobem e descem para todo o lado. As inúmeras pequenas sacadinhas são praticamente a única estrutura de madeira, tão rústicas e estreitas que parece que foram colocadas ali só para decoração. Mesmo San Bartolomeo era assim nesse estilo de conto de fadas; só estando lá para saber como é esta vila de pedra, onde um riacho corre pelo meio da cidade ladeado por tulipas e narcisos e vai terminar numa bica de água potável. O lugar é realmente mágico.

Comemos no único restaurante do lugar. A comida não era absolutamente nada de especial; de pratos quentes, havia apenas quatro. Pedimos o que parecia mais típico, um prato chamado busecca, uma sopa de legumes e tripa (era esta a descrição no cardápio!!!). De sobremesa, foi pudim de castanhas-portuguesas. Infelizmente nada excepcional em sabor, mas foi legal justamente por termos almoçado na menor cidade da Suíça.

O cemitério da cidade possui praticamente três sobrenomes diferentes escritos nas lápides. O "corpo político" de lá é formado por três pessoas, todas da mesma família: Claudio, Fabio e Marino Scettrini. Uma terrível oligarquia. Mas a cidade parece ir bem, já que a taxa de desemprego é 0%. Eu queria saber em quanto contribuímos para o PIB do lugar só com aquele simples almoço.

Depois continuamos o caminho, desta vez pela estrada, margeando o rio Verzasca. O rio é de uma cor inacreditavelmente verde. Parece o mar da Grécia, ou um balneário caribenho. Simplesmente maravilhoso. As pedras são todas claras, e esculpidas pela água nas mais imprevisíveis formas.

Por fim, eis que vemos adiante a ponte que procurávamos, na comuna de Lavertezzo. Ela foi construída pelos romanos mais de 2.000 anos atrás, e é conhecida como Ponte dei Salti (Ponte dos Saltos). Isto porque a ponte faz dois suaves saltos sobre o rio. É incrível que tenha se mantida em pé por tanto tempo, pois a estrutura parece muito frágil. É tudo muito lindo. Infelizmente chegamos uns dez minutos depois do sol se esconder atrás do cume da montanha, de modo que a ponte ficou no escuro. Mas são estas as fotos que consegui fazer.

Devo dizer que o vale Verzasca parece um lugar que parou no tempo e pouco mudou em pelo menos 150 anos. Tudo é muito rústico e simples, um significativo contraste com as cidades sofisticadas ao redor, como Lugano e Locarno. A natureza é muito bem preservada lá, havendo muitas florestas ainda, e o contato com a natureza é bastante forte (algo um pouco difícil de se encontrar numa Europa altamente antropizada).

Para quem gosta de trilhas, lá elas são muito bem demarcadas e muito interessantes. Há muito o que fazer em bicicleta e há muitos que descem o rio de canoa (embora seja bastante perigoso). É certamente um ótimo lugar para visitar num final de semana, sendo um passeio muito diferente e muito original.

Inacreditável cena de James Bond no vale Verzasca:





A pequena vila de San Bartolomeo.
Corippo, a menor cidade da Suíça, com apenas 12 habitantes.

Uma viela de Corippo.

Um telhado típico feito de pedras da região.

Uma das poucas casas ainda habitadas de Corippo.

O vale Verzasca, olhando para o norte.


Bica d'água em uma trilha do vale Verzasca.

Pedras esculpidas pelo rio.
Finalmente, a Ponte dei Salti, um dos símbolos do Ticino!



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