sábado, 13 de abril de 2013

Vale Verzasca: da Ponte Romana a 007

Hoje finalmente o Sol decidiu dar as caras, e então eu e meu tio fomos dar uma volta num vale perto de Locarno, na cabeceira do lago Maggiore, chamado vale Verzasca.

Nossa missão era chegar até uma ponte romana muito bela construída sobre o rio Verzasca. O vale é um local muito bonito e muito pitoresco. Já na entrada do vale há uma barragem imponente barragem, uma das mais altas da Suíça, com pelo menos 220 metros de altura.

Esta barragem ficou relativamente famosa por aparecer na primeira cena do filme filme 007 Contra GoldenEye (1995), quando o inesquecível Bond, James Bond, interpretado por Pierce Brosnan, chega com uma ridícula cordinha de dez metros à tiracolo e faz um salto de mais de duzentos metros barragem abaixo. Deixo o link desta cena mais abaixo para que possam conferir.

Embora pouca gente saiba que aquela cena foi rodada na Suíça e no vale Verzasca (afinal, no filme isto se passa em algum país soviético), até hoje tem um serviço de bungee jump lá, chamado justamente o bungee jump do 007. Este é o mais alto da Europa e um dos maiores do mundo, o que faz com que várias pessoas venham dos mais distantes cantos do globo especificamente para saltar nisso (tem louco para tudo). Eu particularmente gostaria de tentar, mas não foi desta vez.

O vale é estreito e muito bonito, coberto de florestas em todas as encostas. Estacionamos em uma aldeia chamada San Bartolomeo, que segue uma arquitetura típica da região. Lá as pedras são quase mais abundantes que as árvores. O solo é muito pouco profundo, e as rochas surgem por toda a parte. Se como são rochas sedimentares, são fáceis de serem quebradas de maneira relativamente regular, então as casas são construídas em pedra, do piso ao teto. Sim, não há telhas, mas placas de pedras sobrepostas. É incrível como aquilo se mantém de pé. Creio que deva ser uma estrutura que se sustente por si própria, apenas com uma simples estrutura de madeira para dar apoio.

Nesta vila há uma igreja que foi a primeira a chamar-me a atenção sobre aquele fato que expliquei no post anterior, aquele de por fora serem simples e por dentro serem belas e ricas. De fato, o exterior da igreja é quase espartano, desprovido de ornamentação mesmo na fachada. Já por dentro, encontramos afrescos maravilhosos, alguns do século XIV, estátuas, balaustradas em granitos coloridos, etc. É incrível que um artesão tenha vindo a um lugar tão distante para fazer obras tão belas (ou como trouxeram de lá debaixo estas estátuas e trabalhos em pedra pesadíssimos).

Disseram-me as igrejas são assim porque são relativamente recentes, e foram construídas depois do renascimento, o período áureo das artes, incluindo a arquitetura, na Itália. Quando o desenvolvimento finalmente chegou àquelas paragens, junto com uma condição financeira melhor, as igrejas já estavam construídas, e era mais fácil modificar o interior do que o exterior (depois, dentro dá muito menos manutenção do que fora). Assim, ficaram lindas por dentro e sem-graça por fora.

Continuando o passeio, subimos o vale por uma trilha tentando identificar as árvores do lugar      carvalhos, castanheiras, faias, bétulas...       e com direito a encontrar algumas ruínas simples. Fomos almoçar numa vila chamada Corippo, que é a menor cidade da Suíça. Tem apenas 12 habitantes! Corippo, como as cidadezinhas ao redor, é surreal. Toda construída em pedra cinzenta, na encosta da montanha, é um labirinto de ruazinhas e vielas estreitas que sobem e descem para todo o lado. As inúmeras pequenas sacadinhas são praticamente a única estrutura de madeira, tão rústicas e estreitas que parece que foram colocadas ali só para decoração. Mesmo San Bartolomeo era assim nesse estilo de conto de fadas; só estando lá para saber como é esta vila de pedra, onde um riacho corre pelo meio da cidade ladeado por tulipas e narcisos e vai terminar numa bica de água potável. O lugar é realmente mágico.

Comemos no único restaurante do lugar. A comida não era absolutamente nada de especial; de pratos quentes, havia apenas quatro. Pedimos o que parecia mais típico, um prato chamado busecca, uma sopa de legumes e tripa (era esta a descrição no cardápio!!!). De sobremesa, foi pudim de castanhas-portuguesas. Infelizmente nada excepcional em sabor, mas foi legal justamente por termos almoçado na menor cidade da Suíça.

O cemitério da cidade possui praticamente três sobrenomes diferentes escritos nas lápides. O "corpo político" de lá é formado por três pessoas, todas da mesma família: Claudio, Fabio e Marino Scettrini. Uma terrível oligarquia. Mas a cidade parece ir bem, já que a taxa de desemprego é 0%. Eu queria saber em quanto contribuímos para o PIB do lugar só com aquele simples almoço.

Depois continuamos o caminho, desta vez pela estrada, margeando o rio Verzasca. O rio é de uma cor inacreditavelmente verde. Parece o mar da Grécia, ou um balneário caribenho. Simplesmente maravilhoso. As pedras são todas claras, e esculpidas pela água nas mais imprevisíveis formas.

Por fim, eis que vemos adiante a ponte que procurávamos, na comuna de Lavertezzo. Ela foi construída pelos romanos mais de 2.000 anos atrás, e é conhecida como Ponte dei Salti (Ponte dos Saltos). Isto porque a ponte faz dois suaves saltos sobre o rio. É incrível que tenha se mantida em pé por tanto tempo, pois a estrutura parece muito frágil. É tudo muito lindo. Infelizmente chegamos uns dez minutos depois do sol se esconder atrás do cume da montanha, de modo que a ponte ficou no escuro. Mas são estas as fotos que consegui fazer.

Devo dizer que o vale Verzasca parece um lugar que parou no tempo e pouco mudou em pelo menos 150 anos. Tudo é muito rústico e simples, um significativo contraste com as cidades sofisticadas ao redor, como Lugano e Locarno. A natureza é muito bem preservada lá, havendo muitas florestas ainda, e o contato com a natureza é bastante forte (algo um pouco difícil de se encontrar numa Europa altamente antropizada).

Para quem gosta de trilhas, lá elas são muito bem demarcadas e muito interessantes. Há muito o que fazer em bicicleta e há muitos que descem o rio de canoa (embora seja bastante perigoso). É certamente um ótimo lugar para visitar num final de semana, sendo um passeio muito diferente e muito original.

Inacreditável cena de James Bond no vale Verzasca:





A pequena vila de San Bartolomeo.
Corippo, a menor cidade da Suíça, com apenas 12 habitantes.

Uma viela de Corippo.

Um telhado típico feito de pedras da região.

Uma das poucas casas ainda habitadas de Corippo.

O vale Verzasca, olhando para o norte.


Bica d'água em uma trilha do vale Verzasca.

Pedras esculpidas pelo rio.
Finalmente, a Ponte dei Salti, um dos símbolos do Ticino!



segunda-feira, 8 de abril de 2013

Gandria: Celtas, Oliveiras e Contrabandistas

Se existe uma coisa boa em Lugano, é que tudo está à distância de uma pedalada. Em quase três semanas aqui, ainda não peguei o ônibus uma vez. E assim, dia desses eu peguei a minha bike para visitar um vilarejo chamado Gandria, há uns 9 km de casa.

Gandria é uma vila antiga, amontoada na margem do lago e à sombra do monte Brè. É a última cidade antes da fronteira com a Itália ao leste de Lugano. O lugar é único, de um charme especial. Se como a vila é medieval, todas as ruas são um labirinto infinito de escadas estreitas que sobem e descem em todas as direções. Passear por lá é mágico, sempre há uma esquina escondida, ou um pórtico baixo que o leva a um local inesperado, como uma pracinha florida ou a margem do lago. É delicioso ficar explorando o lugar.

Como todas as pequenas cidades da Europa, no centro da vila há uma igreja. Isto é uma coisa que me chamou a atenção, pois já havia percebido isto em vale Verzasca, quando lá estive: Por fora, as igrejas totalmente sem graça, desprovida de qualquer ornamento. Mas, quando entrei para ver como era, percebi que o interior é magnífico. Afrescos do pavimento ao teto, estátuas, esculturas, quadros belíssimos, tudo num estilo inconfundivelmente barroco. Me impressiona como artistas tão habilidosos cheguem a lugares tão distantes e isolados para criar obras tão belas.

Após passar a manhã inteira explorando cada viela de Gandria, sente-me ao sol, ao lado de um alecrim centenário todo florido de azul em frente ao lago, para ler um pouco sobre a história do local num folhetinho turístico que encontrei. Fiquei impressionado em como uma cidade tão pequena pode ter uma história tão interessante.

A região ao redor de Gandria era habitada por celtas que nomearam vários locais importantes ali, como o monte Brè, que significa "montanha" em celta, e o lago de Lugano, chamado em italiano de Ceresio, cujo nome vem de Keresios, o deus da fertilidade desse povo. Perto de Gandria há uma rocha com inscrições misteriosas que possivelmente era usada em rituais religiosos, conhecida como Sasso della Pedrescia, ou Sasso delle Streghe, a Pedra das Bruxas. Eu não sei onde está essa pedra, mas gostaria de vê-la.

Em 196 a.C. os romanos ocuparam aquelas paragens e deixaram vários traços de sua presença, como algumas tumbas e objetos encontrados das cidades ao redor. Nesta época o local onde se situa Gandria ainda não tinha sido ocupado definitivamente.

Gandria veio a ser mencionada pela primeira vez em um documento de 1237 endereçado ao bispo de Como, sob o nome de "Gandrio". A Gandria medieval somente era acessível por barco ou por trilhas de difíceis nas encostas íngremes do monte Brè. Por isso a população deveria ser auto-suficiente, dedicando-se além da agricultura, da vinicultura e da pecuária, à pesca.

Uma atividade econômica muito importante em Gandria sempre foi o cultivo de oliveiras (na Suíça?! Sim, isso mesmo). A região foi até notória pela qualidade de seu óleo de oliva. Hoje existe a Rota das Oliveiras, uma trilha que passa pela vila e por olivais costeando o lago, repletas de informações sobre o óleo de oliva. Entretanto, a festa acabou em 1709, quando um inverno excepcionalmente frio destruiu a maior parte das oliveiras. Hoje se tem retomado a atividade oleífera e várias árvores foram plantadas novamente, de modo que a maior parte das oliveiras que encontramos lá são ainda jovens.

Gandria era uma cidade de fronteira, e devido ao seu difícil acesso e dificuldade de controle, a cidade acabou virando um entreposto de contrabando, especialmente de cigarros, carne e bebidas alcoólicas. No Museu das Alfândegas Suíças, lá perto, está exposto um pequeno submarino que era usado para contrabandear salame!!!

Do outro lado do lago, na encosta das montanhas, há o que são chamadas de Cantinas de Gandria, locais isolados que por serem frescos e úmidos devido à proximidade do lago e das florestas, propiciam as condições ideais para o estoque de queijos, vinhos e salames. Essas cantinas deram origem a um tipo de restaurante muito típico do Ticino chamado grotto, sobre o qual escreverei no futuro.

Em 1936 foi inaugurada uma estrada que liga Lugano à Itália e que passa por Gandria, e então uma nova era começou para o vilarejo. Hoje em dia a praticamente toda a população trabalha em Lugano, principalmente no setor bancário e largou mão da vida de agricultor-pescador. Se como o local é agradabilíssimo, muitos estrangeiros vieram morar em Gandria, mas a maior parte da população ainda descende de famílias ali arraigadas por séculos.

Em 2004 Gandria, que até então fora uma comuna independente, foi anexada a Lugano, passando a ser um bairro dessa cidade. De qualquer modo, não perdeu em nada o charme de pequena cidade de interior, longe de agito e imersa em tranqüilidade e paz.

Foi esta visita a Gandria que me convenceu definitivamente a escrever o blog, pois eu fiquei surpreso em como até mesmo um lugarejo tão pequeno pode ter uma história tão interessante, e quis compartilhar estas descobertas e aprendizados com mais gente. Espero que vocês um dia venham conhecer este lugar tão especial!

Gandria vista do lago. Tive de pegar esta foto na internet, para que saibam como é a  vila.

Uma das inúmeras escadas de Gandria.

Uma viela do vilarejo.

A igreja de São Vigílio, vista por fora.

A igreja vista por dentro.

Lagartinho esperto tomando o sol da tarde.
Viela gandriesa levando a um local inesperado.
Fachada da igreja e campanário.

Olivais em Gandria. Notem como são jovens as árvores.


Algo realmente raro de se ver na Suíça!
A Itália vista de Gandria.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Um Pouco Sobre a Suíça e Sobre Lugano

Acho que convém dar um pano de fundo à nossa história, não? Afinal, além dos chocolates, dos alpes e dos bancos, pouco se sabe mais sobre a Suíça.

A Suíça é um paisinho minúsculo (menor que o Estado de Santa Catarina), encravado nos Alpes. Neutra até a medula dos ossos, não se mete em nada. Não entrou para a União Européia, e tem uma razão interessante para isto: A UE não permite subsídios. Na Suíça, uma coisa linda de se ver é que cada centímetro quadrado de terra cultivável é cultivada, e sempre por agricultores familiares. Eles vivem porque o Estado subsidia esse tipo de coisa, e com a entrada na UE isso teria que acabar.

Eu digo que é uma coisa linda de se ver porque fica tudo bonito. Aliás, tudo na Suíça é organizado e bem cuidado. Claro que às vezes se vê pichação por aí, ou raramente lixo no chão, mas é incomparável com outros países, como a Inglaterra ou a França, por exemplo. Além disso, uma coisa louvável é a honestidade do Estado. Aqui quando você paga o seu imposto o Estado o mantém atualizado em o que está sendo gasto o dinheiro, e inclusive você pode opinar no que quer que seja gasto o imposto.

Para um país deste tamanho, é surpreendente que se tenha quatro línguas oficiais: O alemão, falado por 65,6% da população, o francês, falado por 22,8%, o italiano, falado por 8,4% e o romanche, falado por 0,6%. Isso dá um trabalho danado às crianças suíças que precisam aprender pelo menos duas línguas, além do inglês.

Assim como o Brasil é dividido em Estados, a Suíça é dividia em cantões. O italiano é falado no cantão Ticino, o único ao sul dos Alpes, e em partes do cantão dos Grisões, no leste. Atualmente eu me encontro no cantão do Ticino, em Collina d'Oro, no subúrbio de Lugano.

Lugano é uma cidade muito bonita, esparramada no Golfo de Lugano, no Lago Cerésio, ou Lago de Lugano. Fica também entre os montes San Salvatore e Brè. Passear no lungolago (tipo a beira-mar deles) à noite é uma coisa estupenda.

A cidade é charmosa e poética, cheia de ladeiras e prédios belos, caramanchões de glicínias, gazebos ao ar livre e jardins. É também muito pequena; só Lugano em si tem 65.000 habitantes. Para uma cidade com este tamanho, a vida cultural é intensa. Sempre há espetáculos, shows, balés, teatros, etc. acontecendo, e no verão a cidade explode em vida, pois todos os que têm casas de veraneio vêm para cá. A cidade vive de bancos e de turismo, basicamente. É o terceiro centro bancário da Suíça, depois apenas de Zurique e Genebra.

Lugano é conhecida como a Suíça Mediterrânea, e inclusive o bordão turístico da cidade é swiss mediterranean style. Isso fica evidenciado com as milhares de palmeiras que há plantadas pela cidade. É curioso vê-las cobertas de neve, uma imagem no mínimo um pouco estranha. É também a cidade com maior incidência solar da Suíça (embora eu não possa dizer isso por experiência própria). Eu gosto de brincar dizendo que Lugano é o Rio de Janeiro da Suíça, pois está em uma baía, tem um Pão de Açúcar (o monte San Salvatore, dependendo do ângulo, lembra muito essa montanha), uma favela (o bairro Monte Brè, embora seja feito só de luxuosos prédios de apartamentos e hotéis, à noite lembra um pouco), é calorosa e ensolarada e um tanto caótica (dentro dos padrões da suíços, claro). Por ser a parte italiana da Suíça, sempre se acha uma bituca de cigarro no chão ou alguém pisando na grama.

O centro de Lugano, visto do lungolago do outro lado da baía.
A encosta do monte Brè, à esquerda.




Realejo no Parco Civico.

O centro de Lugano. Ao fundo, à esquerda, o monte Brè.

Portão no Parco Civico, o parque principal da cidade.

O Que Houve Até o Momento - Parte 3/3 Lugano-Calamandrana

Para terminar a atualização, eis que num lindo dia nublado e frio, enquanto eu fazia minha vida londrina, recebi um telefonema de meus tios, da Suíça, que me lançaram uma proposta: Eles tinham um casal de amigos que iria viajar por duas semanas e precisaria de alguém para cuidar de seu yorkshire e de sua gata, pois não queriam deixar os bichos num canil.

Se como o que eles me pagariam seria o mesmo ou até mais do que eu ganharia no mesmo período em Londres, eu perguntei ao meu chefe se poderia passar este período na Suíça e ele consentiu. Pouco depois eu estava em um avião com destino a Lugano, no sul da Suíça.

Cheguei uma semana antes, pois seria um feriado e eu e meus tios iríamos visitar meus padrinhos em Calamandrana, um vilarejo medieval nas colinas do Piemonte, no norte da Itália.

Calamandrana é um lugar delicioso, bucólico e de idílio. É divida em duas, Calamandrana Alta, que é a parte antiga da cidade; um punhado de casas com um pequeno castelo e duas igrejas no topo da colina, e Calamandrana Bassa, Calamandrana Baixa, no vale, que é a parte moderna da cidade. Juntas ambas mal perfazem 1.600 habitantes.

Toda a cidade é rodeada por bosques, videiras e aveleiras, que se assentam suavemente na encosta da colina. A região é cheia de colinas, baixas, suaves, colline dolce, nas palavras de meu padrinho, no que lembra um pouco a paisagem da Toscana. Porém, enquanto o que se vê na Toscana é principalmente trigo, aqui são videiras. Futuramente escreverei sobre Calamandrana em um post só para ela.

Surpreendentemente nestes dois dias que passamos lá nevou uma neve totalmente inesperada, o tempo todo, e uma camada de 15 cm de branco pintou toda a paisagem amarelada no intervalo de uma noite.

Na ida a Calamandrana paramos numa trattoria, um restaurante pequeno e simples de comida slow food numa cidadezinha de fronteira que nem me lembro o nome. Slow food é um movimento que surgiu na Itália para combater o fast food, e que visa fazer a comida para ser apreciada realmente, além de preservar pratos típicos e produtos regionais.

Os pratos foram deliciosos, eis o que comemos:

Aperitivos:


  • Sformatino di radicchio con salsa di taleggio. Isto é tipo um bolinho macio de radicchio, uma espécie de chicória vermelha original do Vêneto, com molho de queijo do tipo taleggio, originário do norte da Itália.
  • Lardo di Colonnata. Lardo são fatias de gordura do porco finíssimas muito saborosas.
Primeiros pratos:

  • Garganelli con porcini e crema di Castelmagno. Isso é um tipo de macarrão com porcini, um cogumelo muito apreciado.
  • Gnocchetti di castagno grattinati con speck, crauto rosso e formaggio. Então, este para mim foi o prato supremo do dia. Nhoques de castanha-portuguesa gratinados com speck, um tipo de bacon, crauto rosso, parece um repolho vermelho e queijo.
Pratos principais:

  • Coniglio alla boscaiola con funghi. Uma forma de preparar o coelho com cogumelos.
  • Maialino dal latte al forno aromatico. Leitão assado com especiarias.
Sobremesa:

  • Crostata calda di arancio. É tipo uma torta italiana que leva geléia de alguma coisa em cima. Neste caso ela era servida macia e quente, algo não muito comum.
Depois de voltarmos a Lugano, comecei o trabalho de cuidar dos animais. Levar para passear, dar comida, etc.

Naturalmente que eu aproveito para passear, mas dei o azar de que a maioria dos dias tem chovido. Isso é devido a um ciclone sub-boreal que se formou no norte da Europa e está deixando o clima da estranhíssimo (neve na primavera no Piemonte, frio invernal em Londres, vacas soterradas em neve na escócia, chuva sem parar em Lugano, neve em Veneza e assim por diante).

No dia 8 termina a minha missão e então verei o que faço. Decidirei se continuo na Suíça, se volto para Londres ou se começo a viajar (esta, acho, é a opção mais provável).

Agora que vocês estão a par do que aconteceu nestes quase três meses, podemos passar aos posts do dia-a-dia, onde tentarei trazer a vocês um pouco mais da cultura européia e da experiência de viver no Velho Mundo.
A torre do castelo de Calamandrana.

Uma igreja em Calamandrana, conhecida como Chiesa Vecchia, a  Igreja Velha.

Calamandrana Alta, coberta por uma neve totalmente fora de época.

O Que Houve Até o Momento - Parte 2/3 Londres

O período transcorrido em Londres foi muito interessante. Pela primeira vez, me encontrei vivendo em uma cidade européia, não como um turista, mas como um cidadão. Eu pegava o ônibus, ia trabalhar, voltava de ônibus, fazia as compras, etc. Exatamente como viver lá.

Não andava de metrô. Em Londres, você tem um cartão que é válido para todos os transportes públicos, dependendo do quanto você paga. Chama-se Oyster. Eu pagava, semanalmente, quase 20 libras esterlinas para andar de ônibus o quanto quisesse (é muito inteligente o sistema de transporte público londrino). Se quisesse incluir metrô no pacote, deveria pagar £30,00. Dado que a idéia é economizar, o metrô não era para mim. O que eu fazia era um top-up, uma quantia extra de dinheiro que você mantém no Oyster para quando fosse necessário usar o metrô.

A vantagem de andar de ônibus, já fica a dica, é que você vê a cidade inteira. E é uma cidade muito bonita. De metrô você só vai ver os pontos que for, mas não o que tem no caminho.


Eu trabalhava num restaurante chamado Nando's, uma rede sul africana que trabalha principalmente com frango grelhado. O meu restaurante ficava na esquina da Gloucester Road com Stanhope Gardens, no bairro South Kensington. Fica a lindos cinco quarteirões de três importantes museus, o Museu de História Natural, o Victoria and Albert Museum e o Museu da Ciência. Como biólogo, várias vezes eu chegava uma hora adiantado para matar o tempo no NHM (Natural History Museum). Mas mesmo para quem não é biólogo, o museu é magnífico. A começar pela arquitetura. É imenso, e todo decorado baixos-relevos de iguanas, celacantos (peixe pré-histórico), enguias, pássaros, orquídeas e plantas exóticas. Nas colunas e pórticos, sempre há macacos subindo pelos muros, trepadeiras ou até andorinhas fazendo ninhos. Os gárgulas do museu são tigres-dente-de-sabre, pterodátilos, leões e outras feras. Tudo maravilhoso.


Dentro, a coleção é imensa. Levaria meses para ver tudo. A mais famosa é a galeria dos dinossauros, cheia de esqueletos montados, modelos e informações, além de vários fósseis.


Depois, a parte dos mamíferos, com vários animais empalhados, de camundongos a girafas, além de um modelo em tamanho natural de uma baleia-azul (que parece um navio. Sério, eu nunca vi bicho tão grande!!!).


E assim vai. A galeria dos pássaros é linda também, com uma coleção de aves que é magnífica. Aliás, há um caso curioso aí. Isto provavelmente passou despercebido a 99,9% dos visitantes do museu. O papagaio-moleiro (Amazona farinosa) e a maria-leque (Onychorhynchus coronatus), são dois pássaros brasileiros. O primeiro, quem já foi a Ilhabela, no litoral de São Paulo, certamente já viu um. É um frango verde, não um papagaio, de tão grande.


Dizia na plaquinha que ambos ocorrem na América Central, mas isso não é totalmente correto; o papagaio-moleiro ocorre na amazônia e sudeste do Brasil, e a maria-leque na floresta amazônica. Após me informar melhor, para ter certeza, mandei um e-mail a eles, falando que eu estava "quite sure" de que a placa estava errada e eles me responderam dizendo que eu estava certo! Foram super gentis e disseram que trocariam as placas o mais rápido possível. Da próxima vez que eu for ao museu, será a primeira coisa que irei verificar.


O Victoria and Albert Musem é muito legal também. É a típica idéia que se tem de museu: Milhares de velharias e bugigangas de todo o mundo. Mas é maravilhoso! Muito interessante de visitar.


Por fim, o Science Museum, esse foi o que achei mais sem graça. É muito legal, mas perto dos primeiros, não se faz tanto. Vale a pena a visita, de qualquer modo. O que gostei foi a Rocket, a primeira locomotiva a puxar passageiros, que está exposta lá. Sempre fui maluco por trens.


Mas voltando ao Nando's (aqui você vê que a conversa é bem informal. Vai fluindo...), o ambiente de trabalho é muito legal, bem animado. Trabalham só estrangeiros na minha loja      o único inglês que tinha se demitiu. O "staff" são quatro italianos, além de mim, um venezuelano, duas húngaras, uma indiana, um brasileiro, um bangladeshiano, três espanhóis, um franco-algeriano e um polonês. Praticamente a ONU.


E assim fui vivendo. Sempre que tinha tempo livre ia a algum ponto turístico ou museu, e isto é maravilhoso em Londres: A maioria dos museus é gratuita. No raríssimos dias em que fazia sol (sim, é verdade o que dizem sobre o clima de Londres), o que ocorria mais ou menos a cada duas semanas, eu visitava algum parque.


Quando meu inglês melhorou, comecei a poder sair com o pessoal e ir a pubs. Aliás, outra dica absolutamente recomendável: Façam o Camden Pubcrawl. O Pubcrawl existe em várias cidades de vários países. No Brasil inclusive, em São Paulo e Rio. Você paga uma quantia e é levado em grupo de pub em pub ao redor de Camden Town, um dos bairros mais agitados de Londres. Em cada pub você tem direito a um shot de alguma coisa (pequenino, mas já ajuda) e não paga para entrar em pub ou club algum. A noite sempre termina em alguma balada.


É muito legal para rapidamente ficar sabendo dos pubs de lá e para conhecer pessoas. Eu passei a noite com três brasileiros, uma canadense, um francês e um australiano. Devo dizer que é uma experiência muito bacana. Custa £10,00 se você compra o ingresso por internet, £12,00 na porta e £15,00 com a camiseta, que é bem bonita.


Camden Town é um dos lugares mais legais de Londres. É o meu bairro preferido. Camden é o bairro dos alternativos, dos punks, dos hippies e da vida noturna londrina. A feira de Camden é fabulosa, o Camden Lock (as eclusas de Camden), na beira do canal, iluminado à noite é impagável. Vale a pena caminhar pelo bairro à noite só para ver a movimentação das pessoas indo e vindo, bebendo, conversando e se divertindo. Mas as opções de bares são infinitas, se você mudar de idéia.


Londres é uma cidade muito interessante. A única desvantagem é de fato o clima, que torna tudo cinzento e um pouco soturno. Porém, certamente passarei lá de novo antes desta viagem acabar!
A torre do Big Ben, agora rebatizado para  Elizabeth Tower, em homenagem ao jubileu da rainha.


A Abadia de Westminster, onde são coroados todos os reis da Inglaterra.

Trafalgar Square, a praça mais importante da cidade, com a National Gallery ao fundo, à esquerda.
The Shard of London, o maior prédio da  União Européia, com  mais de 300  metros de altura.  Foi inaugurado este ano e  já está se tornando um ícone de Londres. Projeto de Renzo Piano.
Uma das frases mais ouvidas pelos londrinos.
A Tower Bridge.
A feira de Camden Town. 

Fachada do Museu de História Natural de Londres, um dos mais importantes do mundo.
Esqueleto de plesiossauro no NHM.

Papagaio com a placa errada. Vamos ver se mudam isto!

O típico English Breakfast, um verdadeiro prato de pedreiro. Imagine comer tudo isso no café-da-manhã!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Que Houve Até o Momento - Parte 1/3 Londres

Eu disse que ia escrever sobre Collina d'Oro, mas menti a vocês.

Antes, acho, é mais importante escrever sobre o que aconteceu, um rápido resumo dos quase três meses de Europa, transcorridos entre Londres, Lugano e um bate-e-volta em Calamandrana, Itália. Um post para cada mês, e depois eu conto sobre Collina d'Oro (vocês já devem estar curiosos).

Esta é a primeira vez que viajo sozinho, completamente sozinho. É verdade que tenho parentes que vão me acolher na Europa, mas em princípio estou sozinho. E, como sempre acontece com os calouros, não pode deixar de ter um monte de aventuras inerentes à inexperiência de viagem. Só a chegada em Londres foi quase cômica.

Eu deixei a ilha paradisíaca onde moro num dia cinzento e chuvoso, uma amostra de como seria em Londres, e peguei o avião para Guarulhos, SP. Já ganho o primeiro sustinho da viagem quando o avião, que estava aterrizando, arremete de volta para o céu, por causa do vento desfavorável ao pouso. Não foi nada traumatizante, mas certamente desconfortável. Depois de uns 15 minutos voando em círculos, pousamos do outro lado da pista.

A seguir (umas horas depois), pego o avião para Paris, onde faria escala antes de pousar em Londres. A viagem foi bastante tranqüila, e aproveito para deixar a dica: Em viagens longas, pegue o assento do corredor. Eu já havia viajado uma longa distância na janela, mas no corredor, apesar de não ter vista, você tem a grande vantagem de poder se levantar a hora que quiser sem incomodar o próximo. Você pode caminhar pelo avião, buscar água e ir ao banheiro quantas vezes quiser. Pense bem, além disso, sentando na janela, das 9 horas de vôo, você vai ter vista na decolagem e na aterrizagem. Depois, são praticamente 7 horas tendo abaixo de você nada mais do que o oceano infinito. É sem graça.

Assim, numa resplandescente manhã de sol, o imenso Boeing pousou nas paisagens infinitamente brancas do  norte da França. Tudo estava coberto de neve do dia anterior,  e o sol fazia tudo brilhar. Fazia -5ºC, e ainda lembro de como foi gostoso aspirar o primeiro o ar gelado da Europa quando desci do avião.

Descer do avião levou quase vinte minutos, porque o piloto não abria as portas por causa de algum problema com o pessoal do aeroporto. Disse-nos o piloto que eram as condições climáticas (sol??). Mais tarde vim a descobrir que qualquer problema a Air France põe a culpa no clima.

As instruções eram precisas. Chegando no Charles de Gaulle, eu deveria pegar minhas bagagens e tentar encontrar um shuttle ou navette, em francês, para ir até o aeroporto de Orly, onde pegaria o avião para Londres. Mas o legal foi que, no segundo maior aeroporto da Europa, eu não achava em lugar algum a bendita navette. Todos a quem eu perguntava me mandavam a um lugar diferente do aeroporto, e quando eu fui procurar por mim mesmo, acabei chegando num buraco aleatório que era uma parada de trens.


Por fim, com medo de perder a hora do vôo, fui forçado a pegar um táxi. Por sorte eu trouxe alguns euros comigo. O aeroporto de Orly fica do outro lado da cidade, e como presente de boas vindas, lá se vão 60,00 € logo de cara.


Ainda por cima, chegando no aeroporto o taxista pergunta "Você vai para Orly Sul ou Orly Oeste?". Eu só pude dizer "Mas existem dois Orlys?". Revirando os meus papéis eu descobri afinal em qual dos Orlys era o meu avião e chegamos sem maiores problemas.



Lá, após uma hora de atraso (devido ao clima, claro), o avião partiu e finalmente cheguei em Londres, onde fui recepcionado pelo meu primo em típico pub inglês, com cerveja e fish and chips. Fui dormir mais de 24 horas depois de ter partido, mas a primeira etapa da minha viagem estava concluída. E melhor, o mais importante, eu já estava na Europa. A partir daí, meus caros, a aventura começaria irreversivelmente.

P.S.: Não sei porque tem umas frases grifadas.

Foto da primeira impressão da Europa: Tudo branco de neve nos arredores de Paris


Os jardins do Palácio de Versalhes, em Versalhes, França, vistos do avião.
Vejam como não é um mito. Uma foto aérea do Canal da Mancha. No canto, à  esquerda, se vê o ensolarado litoral da França. Assim que se começa a atravessar o canal, começa a nuvem que paira eternamente sobre a Grã-Bretanha.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Prazer, André

Ok, agora vamos às apresentações. Sou simplesmente André, e decidi tirar um aninho de pausa da facu para viajar pela Europa.

O plano é o seguinte: Não há plano. A idéia (sim, não me rendo ao Acordo Ortográfico) é encontrar trabalho por aí      algo não muito fácil numa Europa em crise      para juntar dinheiro e com esse dinheiro viajar para onde der.

O objetivo desta viagem é ser uma experiência de vida única e valiosa. Conhecer lugares, pessoas, países, pratos típicos e tudo o que aparecer pela frente. Provavelmente não terei outra oportunidade como esta, já que a vida vai nos amarrando cada vez mais, então decidi fazer isto de uma vez.

Alguns amigos pediram-me para criar um blog sobre isso, eu resisti um pouco à idéia. Em parte porque sou tão hábil com o meio eletrônico quanto um cavalo ao piano; o layout miserável do blog atesta isso.

Mas tenho aprendido tanto que gostaria de dividir isto com outros que ainda terão a oportunidade de fazer o mesmo que eu, então aí está o blog Eurotrip 2013, onde narrarei os episódios mais marcantes do meu projeto.

Para variar, pegamos o bonde andando. Eu comecei a viagem no dia 14 de janeiro de 2013, e desembarquei na Europa no dia 15. Cheguei em Londres, fria, chuvosa e cinzenta, onde havia conseguido um emprego num simpático restaurante de uma rede sul africana chamada Nando's. Muito comum em países anglófonos, como Reino Unido, Austrália, África do Sul, não tanto nos EUA e até em outros, como Bangladesh (!). Este foi o meu primeiro emprego, e lá fiquei até meados de março, conhecendo Londres e juntando dinheiro, até que vim para a Suíça.

O local de onde escrevo chama-se Gentilino, um distrito da comuna de Collina d'Oro, que será o tema do meu próximo post. Collina d'Oro, para os que não sabem, o que certamente é bastante gente, fica no subúrbio (não pense no sentido negativo que essa palavra carrega, o lugar é lindo!) de Lugano, a cidade mais importante da Suíça Italiana.

Então o relato começa bastante atrasado, mas ainda temos 9 meses e meio pela frente! Até a próxima!

Uma Rápida Introdução

A pedido de muitos eu finalmente começo o blog sobre esta viagem insana ao redor do Velho Mundo!

Quem estiver interessado em saber mais sobre viagens, lugares exóticos, cultura, culinária, história, monumentos, belas fotos, dicas de viagem, etc., sinta-se à vontade para lê-lo, acompanhá-lo e comentá-lo (sim! Por favor comentem, senão eu não saberei se vocês estão acompanhando e todo o meu esforço será vão).

Um abraço e boa viagem!