sábado, 31 de agosto de 2013

Salerno: sobre o mar e sob a neve

Hoje foi o dia de ir conhecer Salerno com os adolescentes do grupo escolar que eu conheci em Pompeia. Combinamos que eu iria encontrar uma garota do grupo na estação de Pompeia       cidade, não ruínas       e o pai dela iria nos dar carona até outra estação, onde todos se encontrariam.

Uma vez no carro, tentei colocar o cinto de segurança, mas para a minha surpresa não tinha! O pai, vendo-me procurando disse "não se preocupe, aqui ninguém usa isso!". Bom, estamos no sul da Itália...

Uma vez lá todos esperamos os outros, que estavam atrasados, mas isso também é comum no sul da Itália. Ao chegar todos me cumprimentaram calorosamente, o que é extremamente comum nessas paragens. É curioso que até os homens nos sul da Itália se cumprimentam dando dois beijos no rosto, mesmo se não conhecem bem a pessoa, como foi o meu caso. Confesso que não é confortável, pois não estou acostumado, mas retribuí da mesma maneira.

Enfim, pegamos o trem que atravessa um túnel por debaixo da península Sorrentina e desemboca em Salerno, uma grande cidade, a última da Costa Amalfitana. De fato o local é belíssimo, porque fica numa enseada com toda a Costa ao norte e noroeste, com montanhas cujos cumes superam os mil metros, e para o sul grandes e largas praias. Durante o inverno, às vezes neva no cume das montanhas, e fica aquela cidade balneária sob os cumes nevados na beira do mar, uma cena muito incomum!

O centro de Salerno com os cumes da península Sorrentina nevados.
Foto retirada da Internet.
Fomos direto ao duomo de Salerno, uma bela igreja em estilo românico, que é bastante peculiar. A começar porque é a única catedral da Itália em que a porta se abre não para a cidade, mas para um claustro, com uma porta em cada uma das paredes livres.

Dentro o teto é de madeira, coisa que eu não tinha visto até então. Porém, dentro das capelas laterais, o teto é decorado com belíssimos mosaicos, à maneira bizantina. Mas curiosamente a catedral não é riquíssima de ornamentação, como se espera encontrar na Itália.

Nave principal do duomo de Salerno.
Digno de nota também é o púlpito, feito com mármores policrômicos e incrustado de pedras.


Detalhe do púlpito.
Excepcionalmente o duomo de Salerno é jazigo do Papa Gregório VII, que morreu exilado na cidade.

Mas que a igreja não tem de decoração, a a cripta tem. Esta, sim, é magnífica. Toda barroca (estilo arquitetônico que eu adoro), é toda afrescada com passagens da vida de são Mateus, a quem a igreja é dedicada, emolduradas por mármores coloridos. No centro da cripta, exatamente abaixo do altar principal da catedral, está o túmulo de são Mateus e uma estátua que representa o santo escrevendo o seu evangelho, em bronze, bifronte. Ou seja, que tem duas frentes. Devido a essa característica particular, me explicaram, dizem que os habitantes de Salerno são todos duas-caras.

Cripta do duomo, com estátua brônzea bifronte sobre o túmulo de são Mateus.
Depois descemos até a beira-mar a caminhamos um pouco, pois lá é realmente muito bonito. Me lembrava vagamente o Principado de Mônaco, embora seguramente não tivesse um quinto do PIB desta cidade. Belos prédios em estilo eclético, amplos jardins, o mar ao lado, e milhares de pessoas passeando à tarde e desfrutando o seu sábado. Uma banda tocava num coreto e os navios adentravam o porto.

Lungomare de Salerno.
Atrás da cidade, no topo de um morro, as ruínas de um imenso castelo assomavam a enseada. Quem sabe quando ele foi construído, ou quantos olhos de vigias perscrutaram o mar infinito à espera de um ataque repentino por parte dos sarracenos ou outro povo longínquo...

Castelo arruinado em Salerno.
A vista que se tem da Costa Amalfitana é realmente estupenda, se via quase todas as cidades principais, isso para não falar da beleza dos cumes altíssimos que se despejam no mar. Um dia todas aquelas ribanceiras foram uma poderosa república, que junto de Pisa, Veneza e Gênova, controlou as rotas marítimas do Mediterrâneo. Mas isto explicarei em detalhes alguns posts mais à frente.

Ficamos assim passeando, numa tarde muito gostosa. Ao final voltamos a Pompeia, fizemos um lanche no centro comercial de lá e cada um seguiu o seu caminho.

A Costa Amalfitana vista de Salerno, veladas pela névoa.
Achei muito legal da parte deles convidar-me para este passeio, além de todo o interesse por eu vir de um outro país. Mas os napolitanos são assim receptivos e simpáticos. Tantas vezes eles simplesmente olhavam para mim e começavam a conversar, como se nada fosse. Me lembrou muito o jeito do carioca de ser. Na verdade dá até para fazer algumas comparações, pois até chiar no "s" e comer o "d" dos gerúndios eles fazem!

Combinamos de nos encontrar mais uma vez antes que eu fosse embora, mas infelizmente não foi possível. Entretanto serviu para mostrar-me como o napolitano é simpático, acolhedor e aberto a todos os visitantes, fazendo disto uma das maiores atrações da província.

Sorrento: terra de sonhos e limoncello

"Lá na terra da vida e dos amores
Eu poderia viver inda um momento...
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento"

Álvares de Azevedo

Neste dia eu tinha a intensão de realizar outro sonho de infância e conhecer a Costa Amalfitana. Fui até o ponto de ônibus e esperei. O ônibus não passou. Esperei mais um pouco, mas ônibus continuava sem passar. Perguntei a uma barista se o ônibus já havia passado e se ela sabia o que havia acontecido, mas ela disse que não para ambas as perguntas. Dali a pouco passou um policial. Pedi a ele se havia algo errado com o ônibus e ele não fazia a menor ideia. Depois de mais de uma hora esperando o ônibus eu desisti de ir à Costa Amalfitana e fui, então, conhecer o centro de Sorrento, que era ali do lado.

Escrevi esta passagem acima para ilustrar como que, ao visitar a província de Nápoles você tem que estar disposto a mudar constantemente de planos. Como eu disse, em Nápoles não se faz planos e se vive o momento. Pode parecer uma maneira poética de viver, mas não deixa de ser uma estratégia de sobrevivência, porque este tipo de coisa é mais do que comum; é corriqueira. Uma vez, no centro de Nápoles, eu estava no ponto de ônibus e perguntei a uma mulher a que horas passaria o ônibus. Ela riu de mim e respondeu "não tem hora, eles passam quando querem!".

Assim fui caminhando do ponto de ônibus de Sant'Agnello, onde está o hostel, para Sorrento. No caminho vi que a estrada foi fechada para recapeamento e os ônibus passavam por outra via, mas ninguém      nem a polícia      sabia disso. Mas enfim, estamos no sul da Itália!

Sorrento é uma cidade muito pequena, mas muito bonita. Fica encarapitada no topo de uma falésia de uns 50 metros de altura, rasgada em alguns pontos pelos cursos de água até quase o nível o mar.

A cidade é linda, sobretudo charmosa. Poucas ruas e vielas estreitas, mas todas muito limpas e bem cuidadas. As praças são ajardinadas, as casas pintadas, e tudo resplandece com o ar irreverente do sul da Itália. Mesmo que com os varais estendidos sobre as ruas e nas sacadas, tudo é bonito.

Sorrento abraça o golfo de Nápoles.
A cidade abraça amplamente o golfo de Nápoles e possui uma vista única do monte Vesúvio. À noite, as luzes tremeluzentes da capital do outro lado cintilam sobre o mar, e tudo exala paz e inspiração.

Rua principal de Sorrento.
Sorrento é uma cidade calma, ninguém vem baladear aqui. Aqui se vem para passear, para degustar um licor de limão e uma boa pizza. De fato, a cidade é cercada por plantações de limão-siciliano, usado para fazer o mais famoso licor da Itália, o limonecello. Sorrento é a terra do limoncello.

Uma viela de Sorrento.
Ao entrar numa igreja eu me deparei com uma representação muito curiosa de Maria, que depois conferi ser muito típico do sul da Itália, na qual ela é representada com o peito trespassado por uma ou mais espadas e chorando sangue, conhecida como la Madonna Addolorata, a Nossa Senhora Sofredora, numa livre tradução, e que representa Maria vendo o seu filho crucificado.

Eu conhecia uma canção napolitana em que o filho emigrante diz à mãe "A vuje ve sonno comme a 'na Maria / cu 'e spade 'mpiett' 'nnanz'ô'figlio 'ncroce" (difícil de pronunciar, não?) que significa "a vós eu sonho como uma Maria / que com espadas no peito olha o seu filho na cruz". Eu achava excessivamente dramático, mas depois que conheci a addolorata entendi o que Massimo Ranieri queria dizer.

Cu 'e spade 'mpiett' 'nnanz'ô'figlio 'ncroce.
O que mais me impressionou no sul da Itália foi a quantidade de artesanatos que existe. É uma coisa admirável. Na província de Nápoles, são famosas as porcelanas de Capodimonte, os trabalhos com coral, a tradição do presépio, o limoncello, os artigos de couro, a marchetaria, o camafeu, e em Amalfi ainda existe o papel de Amalfi, um tipo de papel de algodão muito especial.

Eu nunca gostei de porcelana, mas aquelas de Capodimonte são algo de deixar o queixo caído, tamanha beleza e perfeição das peças. Havia buquês de flores expostos nas lojas que aos olhos de um desatento passariam sem dúvida por flores reais. Geralmente as porcelanas representam, quando não arranjos de flores, camponeses e pescadores em suas atividades ou em algum tipo de lazer. Há belíssimas porcelanas destas exibidas no Museu de Capodimonte, a antiga residência da família real napolitana.

Porcelanas de Capodimonte à venda.
Os presépios napolitanos são maravilhosos, com todos os bonecos feitos à mão em cerâmica, peças delicadas vestidas com vários tecidos engomados. Os cenários também são construídos meticulosamente e há uma infinidade de personagens. Praticamente todas as igrejas possuem um presépio. Para se fazer um presépio verdadeiramente napolitano é preciso seguir algumas regras, das quais, infelizmente, só lembro de duas. Uma é que as peças devem ficar maiores conforme se distanciam da Sagrada Família, para criar a ilusão de perspectiva. A segunda, no presépio deve constar uma taberna, "antro do pecado", para antagonizar com o bem, Jesus e família, logicamente.

A cultura do presépio é tão rica que eu poderia dedicar um post inteiro só a isso, se tivesse tempo. Porque cada local e cada único personagem tem um significado. A cigana, devido a sua capacidade de prever o futuro, representa o sofrimento que está por vir a Jesus. O pescador representa o "pescador de homens", alusão à passagem da Bíblia em que Jesus diz: "e eu vos farei pescadores de homens" (Mat 4:19). A meretriz, colocada junto à taberna, se contrapõe a pureza de Maria. Há também os dois compadres, tio Pascale e tio Vicienzo, alegorias do carnaval e da morte.

Presépio na igreja principal de Sorrento.
Essas contraposições do sagrado e do profano, do casto e do impuro, do alegre e do triste, da morte e da vida, são muito típicas do barroco       e por extensão muito típica de Nápoles, cidade de contrastes, desesperadamente barroca. O esplendor do Reino de Nápoles teve seu auge nessa época, e em sua capital esses ideais foram facilmente assimilados por um povo que aprendeu que a alegria e a vida acabam num instante         como nos poucos segundos de um terremoto. Um povo que conviveu com as guerras, mas que aprendeu a ser feliz e gozar a vida ao mesmo tempo que teme o Vesúvio. Acredito que venha daí o jeito irreverente do napolitano, que procura sempre aproveitar o momento, pois nunca se sabe o que vem depois. Mas, é claro, estas são as minhas impressões do povo napolitano, baseado no que eu li e vivi. Pode ser que esteja tudo errado.

Voltando aos artesanatos, tem o limoncello, licor feito da casca do limão-siciliano, que tomado gelado ao fim de uma abafada tarde italiana é simplesmente uma das joias das bebidas italianas. O ambiente romântico e perfumado da Itália com a sua brisa cálida e com os últimos raios de sol bruxuleando no mar lá embaixo ajudam muito a melhorar o sabor. Uma coisa interessante é que as plantações de limão-siciliano são todas cobertas por uma tela tipo sombrite. É estranho que o sol direto faça mal aos limões, na minha opinião, mas não cheguei a descobrir o porquê.

Uma plantação de limão-siciliano.
Lá se faz muita joalheria com o coral, como colares, brincos, pulseiras, broches, etc. A cor vermelha natural desses corais extraídos do Mediterrâneo é muito intensa e muito bonita. Há dois tipos de artigos em coral. Um, esculpindo-os ou usando as formas naturais e a outra fazendo uma pasta com o pó do mesmo, que geralmente é feita com os restos da manufaturação do coral, sendo esta última de menor qualidade. Uma coisa muito comum na região é o cornetto, um chifrinho de coral que é usado como amuleto para trazer boa sorte.

A marchetaria aqui usa diferentes tons de madeira para criar desenhos incríveis nos mais belos objetos, de caixinhas e ímãs de geladeira a móveis maravilhosos. Fiquei tentado a levar uma mesa para casa, de tão esplêndida que era. Pena não ter meios, espaço e dinheiro para fazer uma aquisição daquelas...

O camafeu é típico da região como um todo, mas mais especificamente do município de Torre del Greco, onde os mais refinados bustos femininos são esculpidos delicadamente nas conchas marinhas, retirando-se as partes mais espessas e criando um desenho emoldurado por mineral translúcido. O camafeu é uma arte suave e muito refinada. Imagino que seja extremamente difícil escupir uma concha, já que elas crescem em camadas, e não deve ser fácil moldá-las sem destacar uma camada da outra.

Um camafeu típico de Torre del Greco.
Os artigos de couro são uma tradição mais da cidade de Nápoles, onde são particularmente famosas as luvas. Estas, feitas a mão, infelizmente correm o risco de desaparecer, como boa parte das atividades artesanais do mundo, dando lugar ao industrial. Não cheguei a ver nem experimentar nenhuma luva, pois entrar em lojas de roupa não é exatamente o meu programa quando estou visitando uma cidade pela primeira vez, mas gostaria de adquirir um belo par de couro preto antes do inverno, porque minhas mãos sofrem muito o frio.

Quanto ao papel de Amalfi, deixo isto para alguns posts mais a frente, o da Costa Amalfitana.

O que me surpreendeu não foi somente o fato de existir tanta variedade de artesanato, mas também que todos eram feitos com maestria! Era uma coisa realmente importante e levada a sério, de modo que cada artigo era mais belo e especial que o outro. A qualidade dos produtos é incrível, sendo totalmente diferente do que se encontra em feirinhas de artesanato.

E isto tudo porque eu não falei das comidas, que na província de Nápoles encontram a sua máxima expressão na pizza Margherita, simples mas deliciosa, a quintessência da arte de fazer a pizza napolitana. Reza a lenda que esta pizza foi inventada em 1889 pelo pizzaiolo Raffaele Esposito que, para honrar a rainha da Itália Margherita de Saboia, criou uma pizza simples com molho de tomate, mussarela de búfala e manjericão, fazendo assim as cores da bandeira italiana.


Uma pizza verdadeiramente napolitana.

A Margherita é inclusive regulamentada pela associação Verace Pizza Napoletana (AVPN), e para ser considerada vera tem que ser feita com farinha de trigo italiano, tomates San Marzano, mussarela de búfala, óleo extra virgem e deve ser assada em forno a lenha. Se for para ser ortodoxo como rótulo de maisena, nas palavras de Luis Fernando Veríssimo, a pizza ainda tem que ser feita por um homem, que passa um pouco da sua energia viril à massa. E como se não bastasse tudo isso, a Margherita ainda ostenta o selo Especialidade Tradicional Garantida, dado pela União Europeia, e a Itália  candidatou-a a patrimônio imaterial da humanidade na UNESCO. Achou que pizza era uma brincadeira de domingo?

É nessa incrível variedade de cultura, artesanato e sabores, acredito, que se constitui o principal prazer de passear por Sorrento. Conhecer todas estas manifestações da arte popular napolitana. Além do quê, é uma cidade realmente deliciosa para caminhar.

Praça principal de Sorrento.
A descida até o porto é incrível. Por uma fenda lavrada por um riacho desce a rua que se aprofunda até a pequena praia e o porto, onde desembarcam milhares de turistas que vêm nos navios de cruzeiro fundeados ao largo. Ao olhar para cima daqueles paredões de pedra, a cidade está tão empoleirada no topo que parece pendurada, prestes a cair com a menor tremor de terra.

Descendo ao mar.

A cidade empoleirada no rochedo.
Do outro lado da cidade, no mesmo cânion do riacho, encontrei por acaso uma das visões mais peculiares que admirei. Lá no fundo, cercado por vegetação silvestre e na foz de dois córregos, as ruínas de um moinho abandonado, tão assentado entre as plantas e coberto por heras que parece que foi construído para ser parte do cenário. O local é realmente sugestivo, porque é mais uma daquelas paisagens surreais, saídas de mitos épicos e contos de fadas, que só a Itália sabe oferecer com tanta propriedade.

Moinho abandonado em cânion.
Uma coisa curiosa de Sorrento e província de Nápoles em geral é que as pessoas entre si não falam em italiano, mas em língua napolitana, que é muito diferente. Às vezes parecia que eu estava em outro país que não a Itália. Me deixou contente ver que mesmo os jovens e até as crianças falavam nessa língua, que também está vastamente registrada em músicas e livros, de modo que acredito que não corra o risco de desaparecer tão cedo, como acontece com outras línguas faladas na Itália.

Dias depois fui conhecer um lugar chamado Banhos da Rainha Giovanna. É uma pequena baía natural onde a água entra por uma gruta e que, segundo a lenda, era o local preferido de banho da rainha Giovanna, embora eu não tenha descoberto quem ela foi. O fato é que o lugar é lindo, com a água verde esmeralda e cercado por carvalhos e giestas que derramam folhas dentadas e flores douradas na areia.

Piscina natural dos banhos.

Restos da vila romana.
Mas, o que é mais belo nisso tudo é que, ao redor desta piscina e sobre o rochedo adjacente, os romanos com seu refinado senso de estética e beleza construíram uma gigantesca vila, que hoje encontra-se arruinada. Ou seja, o lugar é incrível. Fiquei pensando comigo mesmo como devia ser no passado, talvez com aquela baía de águas cristalinas fazendo as vezes de jardim interno, e os quartos com janelas sobre as rochas voltadas para a baía de Nápoles. Que povo fascinante! Escolheram a dedo o lugar com a mais bela cenografia possível para construir uma vila, que com certeza era forrada de mármores preciosos, estátuas e fontes.

Fiquei impressionado com a quantidade de garotas bonitas na península Sorrentina, além da quantidade, pois não encontrei nenhuma que pudesse ser classificada como feia. Em Nápoles havia algumas garotas feitas, mas de Castellammare di Stabia para cima era o paraíso. Não era bobo o Álvares de Azevedo! Entretanto, parece que elas ficam bonitas até se casarem, pois nenhuma mulher mais velha chamou-me a atenção. Mais uma vez não era bobo o Álvares de Azevedo, que só lembrou de louvar as jovens em seu poema!

Para encerrar este post, deixo o link de uma música que praticamente é o hino de Sorrento, Torna a Surriento, volte a Sorrento, escrita em língua napolitana por Ernesto de Curtis e interpretada pelo grande Pavarotti.


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Pompeia: dois mil anos de sepultamento

Depois de algumas horas de viagem de ônibus, o tempo começou a melhorar. À minha frente começou a surgir uma montanha muito alta e larga. Quando me perguntei se aquela seria o Vesúvio o ônibus começou a contorná-la e apareceu a cratera do vulcão. Fiquei tomado de empolgação.

Logo depois, passamos por um lugar mais elevado, e por um momento eu pude ver toda a baía de Nápoles. Fui assaltado por uma inesperada felicidade; moro em uma cidade litorânea e há três meses que eu não via o mar; não havia me dado conta de quanto que ele me fazia falta. Foi um reencontro muito feliz.

À direita se via alguns arranha-céus de Nápoles e o castelo Sant'Elmo. À esquerda estava a península Sorrentina e a ilha de Capri. No caso eu estava indo naquela direção, pois fui aconselhado de me estabelecer em Sorrento ou redondezas, e não em Nápoles, já que Sorrento é muito mais tranquila e organizada de que a caótica Nápoles.

Cheguei ao final da tarde após rodar por paisagens maravilhosas, dignas de filme. Na verdade a parte bela da região é a península e as ilhas circundantes. Mas todo o trecho entre Nápoles e a península é horroroso. De verdade. Milhares de prédios baixos e feios amontoados um ao lado do outro, entremeados por plantações de culturas várias em meio aos edifícios, com tudo pichado e cinzento.

De Castellammare di Stabia para cima, porém, eram só alegrias. Cidades e vilarejos, falésias maravilhosas, vista magnífica, plantações de limão-siciliano... Estava muito empolgado de ver aquelas belíssimas paisagens pela primeira vez na vida.

Eu sempre soube que os napolitanos eram muito simpáticos, mas eu nunca havia tido contato com eles. Quando o ônibus anunciou a parada de Sant'Agnello, onde ficava o meu hostel, eu desci, mas não fazia a mínima ideia de onde encontrar a rua.

Entrei numa mercearia e perguntei ao vendedor onde ficava o endereço, e logo uma garota que estava fazendo compras disse que morava naquela rua e que podia me acompanhar. Fizemos o percurso e ela sempre conversando, perguntando de onde eu era, por onde tinha viajado, se estava gostando, etc. Ao final me deixou na porta do hostel e se despediu calorosamente, confirmando o que se diz sobre os napolitanos.

Cheguei à tarde e não tinha nada a ser feito. Fui comprar uma pizza e dormir cedo, porque no dia seguinte eu tinha um sonho de infância para realizar: conhecer Pompeia.

Após o café-da-manhã e desci a península de metrô até a cidade morta que instigou minha imaginação desde que eu me entendo por gente.

Depois de comprar o ingresso, subi uma rua de pedras perfeitamente encaixadas e ainda por cima encrustadas com seixos brancos, demonstrando o capricho e refinamento dos romanos, atravessei uma porta de uma muralha e desemboquei direto no fórum da cidade, ou seja, sua praça mais importante.

Entre os pórticos e colunas se via assomando, a distância, o tétrico cume do monte Vesúvio, que numa das mais devastadoras erupções vulcânicas da História, soterrou as cidades de Pompeia e Herculano no ano de 79 d.C.

O fórum de Pompeia com o monte Vesúvio ao fundo. À direita
do Vesúvio se vê o cume do que restou do monte Somma.

Pompeia ficou magnificamente preservada porque sua destruição foi tão rápida que alguns cadáveres nem tiveram tempo de cair no chão. Tudo ficou como naquela fatídica tarde de agosto, quase dois mil anos atrás.

O que foi horrível nesta erupção foi o fato de que ninguém sabia que o monte Vesúvio, que na época atendia pelo nome de Somma, era um vulcão      ou "montanha de fogo", como se dizia. Então sua erupção repentina pegou a todos desprevenidos. Em um dado momento, o cume do monte Somma colapsou e seu desmoronamento gerou um fluxo piroclástico (mistura de gás, pedra e cinzas), que desceu a montanha a centenas de quilômetros por hora e a mais de 700ºC, matando e destruindo tudo no caminho.

Quando a manhã do dia 27 de agosto raiou, tudo o que havia era uma planície fumegante de cinzas e pedra-pomes. Debaixo de vários metros de escombros vulcânicos jaziam os balneários romanos de Pompeia e Herculano. Os anos passaram, e sobre a cratera do monte Somma brotou um outro cume vulcânico, o famoso Vesúvio. Aquelas encostas devastadas transformaram-se em solo fértil onde a vinha e o limão-siciliano vicejam até hoje.

A cidade foi encontrada no século XVIII, quando começaram as primeiras escavações. Muitos detalhes da vida cotidiana dos romanos foram revelados graças a estas duas cidades. De fato, quando caminhando por todas aquelas ruas e avenidas, era muito fácil imaginar como era a cidade, já que a maior parte das paredes ficou em pé.

Esta erupção inspirou muitos filmes e obras de arte. No Tate British, em Londres, há um quadro magnífico de John Martin (1789-1854) chamado The Destruction of Pompeii and Herculaneum, onde com a maestria e dramaticidade dos pintores românticos ele retratou a destruição épica da cidade. Ainda que o quadro seja fantasioso, é estupendo pelas dimensões e pela cenografia impactante. É um dos meus quadros preferidos do Tate.

The Destruction of Pompeii and Herculaneum, de John Martin.
Não se pode ver todos os detalhes, mas dá pra ter uma ideia
do quão épico é o quadro.
Me surpreendeu o fato de que as ruas tinham calçadas, além de algo semelhante à moderna faixa de pedestres. Grandes pedras retangulares com a altura da calçada atravessavam as ruas em vários pontos. Quando chovia as ruas viravam rios de água e deste modo as pessoas podiam atravessá-las sem molharem-se. Já as carroças e veículos a rodas passavam pelos vãos entre as pedras. Estas carroças, por tanto passarem nas ruas, acabaram deixando dois sulcos nas pedras. É o velho ditado "água mole em pedra dura" em ação. Curiosamente, os sulcos deixados nas estradas romanas foram usados como medida para a bitola dos primeiros trens.

Faixa de pedestres à romana.
Em Pompeia havia muito de um serviço parecido com o nosso fast food. Em certos estabelecimentos, na beira da calçada havia um balcão cheio de bocas era aquecido por baixo com fogo a lenha, mais ou menos como um bufê de restaurante a quilo. Em cada uma das bocas ficava uma comida diferente que o cliente pedia e levava. Praticamente um take-away à la Antiguidade Clássica.

Fast food romano.

Todas as grandes casas de Pompeia tinham um páteo de entrada com um espelho d'água, chamado impluvium. Este servia para recolher a água da chuva, que era usada depois nas atividades domésticas. Além desta função o impluvium tinha a função decorativa e de regular a temperatura. Depois deste átrio aquático ficava um outro páteo, com um jardim interno, onde a maior parte das dependências da casa desembocavam.

As casas ricas de Pompeia eram afrescadas com pinturas maravilhosas, sendo que a maior parte foi retirada e levada ao Museu de Arqueologia em Nápoles, para melhor preservação. Os que ficaram, coitados, após resistirem às maresias, às erupções do Vesúvio e aos inúmeros terremotos, sofrem com os vândalos do séc. XXI que insistem em rabiscar as paredes milenares.

Impluvium e jardim interno ao fundo, em uma rica casa
 na via della Abbondanza, a rua da Abundância. Recebeu
este nome pela quantidade de casas ricas que tem.

Nestes afrescos predomina uma notória cor vermelha, que inclusive deu origem ao tom vermelho-pompeia. Além disso, esses afrescos influenciaram muito a arte decorativa da época (fins do séc.XVIII e início do séc. XIX), por causa dos desenhos refinados e leves.

Um dos mais belos e conservados afrescos é o famoso conjunto presente na vila dos Mistérios, uma luxuosa vila na periferia de Pompeia que recebeu esse nome porque em uma de suas salas retrata uma jovem mulher sendo iniciada nos mistérios de Baco, o deus do vinho e dos prazeres carnais.

Afrescos da vila dos Mistérios.
Uma observação interessante, na vila dos Mistérios por muitas portas e janelas, que eram de madeira, ficaram petrificadas, permanecendo com o aspecto original.

Na sociedade romana, o principal ponto de encontro da sociedade eram as termas. De fato, numa cidade relativamente pequena como Pompeia, havia três, mais ou menos luxuosas, conforme a classe social dos frequentadores. Nas termas se botava a conversa em dia, se fofocava, se discutia política, se tramava conspirações, se firmavam acordos, além de ser o lugar onde todos iam ver e ser vistos.

Ao entrar na terma o visitante se despia no apodyterium, onde havia também nichos nas paredes para guardar os objetos pessoais. Havia três modalidades de banho, geralmente feitas em seguência: O frigidarium, banho de água fria, o tepidarium, banho de água morna, e o caldarium, banho de água quente. Alguns termas contam com serviço de sauna também, o sudatorium.

Frigidarium de uma terma mais popular.
Caldarium da mesma terma.
Todas as termas eram aquecidas por fornalhas subterrâneas cuja fumaça quente fluía por vãos no pavimento e nas paredes aquecendo o ambiente.

Em Pompeia havia muitos templos, é claro, sendo que o mais frequentado pela população era surpreendentemente o templo de Isis, uma deusa estrangeira vinda dos confins do Império que era muito popular entre os camponeses. Como se já não fossem poucos os deuses romanos, ainda se agregavam outros estrangeiros ao panteão, como aconteceu também com Mitra, que veio da Pérsia.

Havia também dois teatros e um anfiteatro, como não podia deixar de ser, para as lutas com gladiadores. Além de um imenso alojamento para eles, onde viviam e treinavam. Infelizmente não se podia entrar.

Anfiteatro de Pompeia.
O que é bom de Pompeia é o gostinho de cotidiano romano que se experimenta lá. Na entrada de muitas casas, por exemplo, há um mosaico representando um cachorro e escrito cave canem, ou seja, cuidado com o cão. Em muitas paredes há rabiscos dos próprios romanos, que já apreciavam pichar naquela época. As ruas são bem preservadas, há os fast foods, bueiros, bebedouros, banheiros públicos, em muitas paredes se vê o encanamento, tudo está ali.

Ruela de Pompeia. Dois mil anos e pouca alteração.
Na cidade arruinada um dos locais que mais atrai turistas, com certeza, é o famoso lupanarium, palavra derivada de lupa, loba, em latim, que é uma gíria da época para designar as prostitutas.

O lupanarium é um dos inúmeros bordéis da cidade, porém é o mais luxuoso. Ao entrar o visitante se depara com um corredor cheio de portas laterais. Cada uma daquelas portas é uma cela onde há uma cama. Sobre as portas, pinturas eróticas mostram as mais variadas cenas e posições sexuais, além de um grande afresco de Priapo, o deus da fertilidade, representado bifálico.

O local estava tão lotado de gente que eu não pude ficar muito tempo. Mas sei que há um andar de cima, com mais quartos, além de alojamentos para as prostitutas e uma latrina, localizada no fim do corredor. Nas paredes das alcovas, há rabiscos em latim vulgar, ou seja, o latim do povo, que é um pouco diferente do latim clássico, falado pela nobreza. Estes rabiscos descrevem noites, lamentações por haver contraído alguma doença venérea ou o nome de alguma lupa que fez a noite inesquecível.

Afresco nas paredes do lupanarium.
Quando o fluxo piroclástico destruiu a cidade tudo foi tão rápido que, como eu disse, os cadáveres nem tiveram tempo de cair no chão. Eu disse isso literalmente. Perto do fórum há um corpo que morreu acocorado contra um muro e permanece até hoje nesta posição.

Todos os corpos encontrados são moldes de gesso porque o corpo original, sepultado nas cinzas apodreceu e sumiu, deixando uma "fôrma" da pessoa. Quando os arqueólogos encontravam um buraco eles preenchiam-no com gesso e escavavam ao redor, retirando o molde do cidadão que conservou todos esses anos a expressão de horror e medo, além de serem visíveis roupas e acessórios.

A maioria desses corpos está guardada, mas alguns foram espalhados por Pompeia e são muito impressionantes. Se você olha para os corpos você está olhando para o rosto contorcido de alguém morto há quase dois mil anos. Isto pode ser bastante perturbador.

Moldes de dos cadáveres de Pompeia.

Expressão de sofrimento petrificada no corpo.
Em meu passeio pela cidade tive mais uma prova da receptividade dos napolitanos. Havia uma excursão de alguma escola com um grupo de adolescente e nos encontramos em uma das vilas. Não lembro como começamos a conversar, mas eles olharam para mim e perguntaram de onde eu era. Quando respondi que vinha do Brasil eles exclamaram "Brasil!!!" e me cercaram bombardeando-me com um monte de perguntas.

Ao final ninguém dava mais atenção ao professor, só queriam saber da minha história, que reconheço, é bastante interessante. Não são muitos os que decidem tirar um ano sabático para viajar por um continente. Se como eu estava bem entre eles e havia um professor para explicar tudo sobre Pompeia me agreguei à excursão e passeamos por toda a cidade, no final eu fazendo mais perguntas ao professor que os próprios alunos.

No fim disseram-me que estavam indo a Salerno, uma cidade mais ao sul, para passar o sábado e me convidaram para vir junto. Eu fui a Nápoles preparado para viver as coisas de maneira absolutamente napolitana, ou seja, sem planos e desfrutando os momentos. Então aceitei de imediato e trocamos telefones. Me despedi deles, agradeci ao professor pela aula de História e segui com o meu passeio.

Como deve ser maravilhoso estudar História na Itália. Os italianos vivem cercados por História, pois possuem tudo; obras da idade da pedra, da Roma Antiga, do feudalismo, do Renascimento, tudo está ali, ao alcance deles. Cheguei a invejar quem pode estudar o Império Romano e ir a Pompeia ver tudo na prática.

Ao chegar no hostel, havia 12 solicitações de amizade no Facebook.

Porta Marina, o principal ingresso da cidade arruinada.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Roma: Urbs Æterna IV

O dia de hoje não amanheceu muito bonito, estava nublado e meio chuvoso. Um ótimo dia para ir a museus.

Decidi, então, ir aos museus do Vaticano, um dos lugares que eu queria mais visitar em toda a Roma. Afinal, estes compreendem uma das maiores e mais importantes coleções de arte do mundo.

É curioso que na galeria das estátuas todos os genitais das esculturas foram removidos e substituídos por uma folha de parreira, que evidentemente não é original. Com certeza alguém no passado achou muito indecente todos aqueles "bráulios" à mostra e mandou que fossem removidos.

Na pinacoteca dos museus há um belíssimo quadro de Rafael, Transfiguração, o seu último quadro. É lindo, colorido e dramático. Há também São Jerônimo no Deserto, um quadro incompleto de Leonardo da Vinci.

Fiquei particularmente empolgado por encontrar Laocoonte, uma das mais belas estátuas da antiguidade. Representa Laocoonte, sacerdote de Troia, sendo estrangulado com seus dois filhos por uma serpente. Reza a lenda que foi porque ele suspeitou que o cavalo de Troia estava recheado de gregos e tentou advertir a população, e nisso Atena, protetora dos gregos, mandou a serpente para matá-lo e a seus filhos. Outra versão diz que ou Netuno ou Apolo o mataram por ter-se casado contra as suas vontades. Independentemente da versão, Laocoonte se ferra no final.

A escultura chama a atenção pela sua intensa dramaticidade. Laocoonte tem simplesmente uma expressão de puro horror e, além disso, provavelmente o pesar desesperado de um pai impotente ao proteger os filhos. Me chama a atenção o rosto do filho da direita, que olha o pai com o mesmo olhar que uma criança assustada faz quando tem medo e procura a proteção paterna.

Enquanto isso, a serpente se enrola em todos eles, estrangulando-os cruelmente e todos tentam livrar-se do odioso corpo esguio. A maestria com que foi esculpida, a perfeição da anatomia dos personagens, as expressões absolutamente convincentes e a aparente leveza fazem desta estátua seguramente uma obra prima da arte antiga e uma das mais importantes peças dos museus do Vaticano.

Laocoonte, em toda a sua desgraça.

Passei a toda a manhã e boa parte da tarde lá. Voltei para a casa de minha prima para almoçar e depois segui para ver alguns monumentos ao ar livre, como o teatro de Marcelo.

No caminho, porém, escuto um canto belíssimo de um coral. Faço então uma coisa que adoro que é perseguir música pela cidade, e acabo encontrando-a numa praça em frente a uma igreja. Um grande coral, com orquestra, tocava em comemoração ao 2766 aniversário da cidade, que seria amanhã. Entremeado por músicas e prosa, a apresentação contava a história de roma, desde a sua fundação.

Em um certo momento, um ator vestido de romano se levanta do coro e faz um discurso, exatamente como faziam os oradores romanos milhares de anos atrás, defendendo o finado Júlio César após eu bruto assassínio. Sua interpretação era pungente e empolgante.

Para terminar, cantaram Va, Pensiero, o hino informal da Itália, de Giuseppe Verdi, e o hino da Itália. Tudo muito lindo.

Orador romano em toda a sua eloquência.

Terminada a apresentação, continuei o meu passeio, até o teatro de Marcelo. À este teatro romano, um importante testemunho da arquitetura antiga, foi pouco a pouco, desde a Idade Média, sendo acrescidas pequenas casas e bodegas, até que virou um antigo prédio de apartamentos, resultando numa interessante fusão da arquitetura romana com arquitetura renascentista.

Pouco avante, há o Pórtico de Otaviana, um pórtico imponente do qual sobraram poucas coisas, mas que ainda assim vale a pena ver. O interessante daquela área é que é cheio de blocos de mármores e restos de colunas espalhados por tudo, nos gramados. Gosto especialmente quando as papoulas crescem em meio às ruínas de mármore, é muito bonito.

O pitoresco teatro de Marcelo.

Seguindo em frente, cheguei na praça Bocca della Verità, onde se encontra a famosa Bocca della Verità, um medalhão de mármore representando algum deus fluvial, que fez parte de uma fonte e carrega a crença de que, se alguém põe a mão dentro de sua boca e diz algo, se for mentira a mão será cordada fora. Infelizmente a igreja onde fica a boca estava fechada, de modo que só pude vê-la através das grades do alpendre.
A temível Bocca della Verità.

Algo muito interessante que havia na praça são dois templos romanos, tão perfeitamente conservados que se pode ter a ideia precisa de como aparentavam tantos anos atrás. Um dos templos possui a planta circular. É erroneamente identificado como o templo de Vesta, quando na verdade é o templo de Hércules. O outro, de planta retangular, é o templo de Portuno. Ambos são pequenos, porém muito belos. Nas redondezas há também um arco do triunfo, o Arco de Giano, interessante pela sua forma cúbica.

É sempre belo ver o Sol se por entre as ruínas romanas, pois tudo recebe um ar transcendental. Assim terminou meu dia, entre aqueles pequenos templos. Voltei para casa via ilha Tiberina.

Templo de Portuno.

Templo de Hércules.
O dia seguinte foi praticamente exclusivamente dedicado ao fórum romano, um parque gigantesco que abriga as ruínas do que foi o coração da fervilhante Roma, caput mundi, o centro do mundo, além do monte palatino, onde assentam-se gigantescas vilas* que um dia pertenceram à nobreza romana.

O esplêndido arco do triunfo de Constantino.
Enquanto eu estava indo, entre o Coliseu e o arco de Constantino, uma surpresa: um enorme desfile em comemoração ao aniversário de Roma.

Centenas de pessoas vestidas de políticos, nobres, sacerdotes e sacerdotisas, gladiadores e legiões de várias partes do Império Romano desfilavam acenando para a população. Muito bacana.

Legiões romanas...

...e altos dignitários.
Em seguida, entrei no fórum e passei pelo arco de Tito, de onde desce suavemente a estrada romana em direção ao fórum. Era tudo magnífico! Os romanos foram sem dúvida um povo grandioso. Colunas de mármore erguiam-se por tudo, como uma imensa floresta de pedra. As estradas eram feitas de pedras perfeitamente encaixadas, mostrando como os romanos eram obreiros invejáveis. E pensar que ali, exatamente ali, foi o ponto de encontro mais importante da antiguidade!

O legendário Fórum Romano, com o arco de Tito ao fundo.

Pensei no burburinho de pessoas correndo para lá e para cá, vendedores e mercadores, senadores com túnicas brancas, mendigos e cegos pedindo dinheiro, lavadeiras passando apressadas, gladiadores adorados pela população, patrícias em suas liteiras, tudo acontecia ali, que foi o centro do mundo conhecido por séculos e séculos.

Restos de um templo e a Domus Tiberiana ao fundo.
Para completar a beleza, milhares de papolas vermelhas e camomilas amarelo-brancas despontavam entre o mármore dos templos, e glicínias azuis e lilases subiam pelas paredes e impregnavam tudo com o seu doce perfume. O esplendor de Roma estava ali.

Colunas e arcos, monumentos do Fórum.
Depois, subi o monte Palatino para ver o que sobrou de seus gigantescos palácios. Voltado para o fórum está o Domus Tiberiana, o residência de Tibério, primeiro palácio imperial da colina. Lá não é que sobrou muita coisa, infelizmente, mas se pode ter uma boa ideia do esplendor e do tamanho das vilas que outrora encimaram o Palatino.

O que impressiona mais de tudo é a Domus Augustana, a parte privada do palácio de Domiciano, que é uma coisa indescritivelmente grande. O que sobrou de sua fachada se projeta sobre a colina em direção ao Circo Máximo, lá embaixo, ocupando toda a encosta da colina com seus poderosos arcos de tijolos que mantinham no lugar os terraços do palácio. Tudo é gigantesco, as paredes, as colunas, os arcos. Verdadeiramente impressionante.

Dentro desta vila há o Estádio Palatino, que possuía as funções de anfiteatro e jardim privado, o qual era decorado com estátuas, colunas e arcos. Pelo visto o político não mudou muito desde aquela época, pois sabiam gastar bem o seu dinheiro (que numerosas vezes não era exatamente seu).

Ruínas do Estádio Palatino.
O dia seguinte foi o dia de partir de Roma, mas eu havia uma manhã ainda, de modo que fui até a belíssima basílica de San Pietro in Vincoli para ver a esplêndida estátua de Moisés, feita por Michelangelo. Li que a estátua é tão perfeita que Michelangelo, após terminá-la, agrediu-a gritando "por que não falas?!". Não sei se é verdade ou não, mas dizem que fez mais ou menos o mesmo ao terminar Davi, quando soltou a famosa exclamação "parla!" (fala!). Se ambos os casos forem verdadeiros, ou ele devia ser meio doido ou devia ser muito convencido.

Divagações à parte, a estátua é realmente magnífica, além de muito perfeita. Chama a atenção o par de chifres que brota da cabeça de Moisés, uma representação dele um tanto comum. Isto é porque houve um erro de tradução da bíblia, onde trocou-se acidentalmente "raio" (de luz), karan ou karnaim, em hebraico, por "chifre", keren, palavras parecidas que, junto da estética medieval onde só Jesus poderia irradiar luz, contribuíram para que Moisés fosse vastamente representado cornudo.

Moisés, de Michelangelo.
Feito este curto passeio me dirigi para a estação Tiburtina para pegar o ônibus que me conduziria a uma das mais vivas e radiantes cidades da Itália, mil vezes cantada e declamada, Nápoles.

Abundante floração de glicínia em Roma
*Vila, do latim villa, é uma luxuosa residência ajardinada, geralmente de campo, muito comuns na Roma Antiga e Itália atual. A palavra empregada assim não tem o significado de vilarejo.