terça-feira, 6 de agosto de 2013

Roma: Urbs Æterna III

O dia seguinte foi dia de conhecer a basílica de São Pedro (a minha intensão de fazer o Vaticano em um dia falhou miseravelmente). A fila, como sempre, estava grande, mas pelo menos movia-se rápido. Minutos depois eu estava na nave central de uma das maiores igrejas do mundo.

Principalmente por estar na Europa, eu já vi incontáveis igrejas, das menores capelas a catedrais gigantescas. Posso dizer com segurança que a basílica de São Pedro é uma das mais bonitas que já visitei. Ao contrário das igrejas góticas (como o Duomo de Milão), a basílica renascentista é gloriosa.

Pelo que eu pude captar da intenção dos arquitetos     mestres do calibre de Bramante, Rafael e Michelangelo    , ao invés de mostrar a grandiosidade de Deus oprimindo o homem, como é com o estilo gótico, a basílica nos eleva, nos faz olhar para cima e participar dessa beleza e magnificência. Faz com que nos sintamos juntos de Deus, e não como mínimos pecadores que O veem de longe. A basílica de São Pedro é sem dúvida uma joia da arquitetura mundial.

Interior da nave principal da basílica.

Entrando, logo à direita já se depara com uma obra-prima por si só, a Pietà, de Michelangelo. Esta escultura de mármore é tão perfeita, tão serena e triste que chega a ser comovente.

Dentro da basílica, predominam as cores branco, dourado e azul. O teto é forrado de magníficos mosaicos, à maneira bizantina, enquanto o chão é coberto de intrincados padrões com mármores coloridos. Ao redor da cúpula principal está escrito em letras colossais: TV ES PETRVS ET SVPER HANC PETRAM AEDIFICABO ECCLESIAM MEAM + TIBI DABO CLAVES REGNI CAELORVM. Ou seja, "tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja + te darei as chaves do Reino dos Céus", frase tirada do evangelho de Mateus.
O baldaquino de Bramante, todo feito em ébano, possui 22 metros de altura.

Todas as paredes e capelas laterais estão ocupadas com túmulos e obras de arte (sendo também os túmulos magníficas obras de arte).

É interessante que tudo na basílica é tão grandioso que se perde completamente a noção de tamanho lá dentro. Por exemplo, a pomba do Espírito Santo, que se encontra em um vitral no fundo da nave, parece ter  talvez um metro de envergadura, quando na verdade é do tamanho de um condor: 3 metros. As letras na inscrição da cúpula parecem de pouco mais de um metro, quando na verdade possuem 1,70 metro. A caneta que São Mateus usa para escrever, na base da cúpula, é do tamanho de uma pessoa. Por fim, o estupendo baldaquino de ébano de Bramante parece ter uns 8 metros de altura. Na realidade tem 22.

É de deixar boquiaberto. Fiquei certamente mais de uma hora envolvido por aquela atmosfera grandiosa e absorvendo os detalhes. Em seguida, decidi subir ao topo da cúpula da basílica, de onde pode se ter uma vista espetacular da cidade. O ingresso mais barato prevê a subida a pé, ou seja, galgando um por um todos os 551 degraus até o topo, a mais de 100 metros de altura. Pagando mais, você é levado de elevador, mas mesmo assim vai ter que subir "apenas" 320 degraus.

A subida pode ser longa e tediosa até chegar na base da cúpula, porém uma vez lá, a vista que se tem do interior da basílica é estupenda. As pessoas lá embaixo parecem pontinhos caminhando, enquanto que o gigantesco baldaquino é reduzido a uma miniatura. De lá se pode ter uma ideia mais próxima do tamanho titânico da igreja.

Depois, começa-se a circular o domo, subindo e subindo, até que as paredes começam a inclinar, quando nos aproximamos do topo. Lá o corredor é tão estreito e as paredes ficam tão inclinadas que você tem que ir quase deitado na parede, o que não deixa de ser divertido.

Subindo a cúpula. A foto não foi tirada torta!
No final chega-se ao topo, e a vista do estreito terraço é realmente de tirar o fôlego. À sua frente, a cidade eterna se estende em todas as direções. Você vê um dos berços da civilização ocidental do alto, em toda a sua beleza e grandiosidade.

É gostoso olhar para os jardins do Vaticano também, e mais interessante ainda é pensar que daqueles muros para dentro é um país e dos muros para fora é outro, completamente diferente. Você pode ver todas as fronteiras do menor país do mundo!

Eu sempre fui fascinado por microestados, portanto para mim isto é genial.

A cidade eterna, até onde a vista alcança.
A cidade-estado do Vaticano conta com aproximadamente 800 habitantes, possui um sistema próprio de correios, uma estação de trens, uma sede de rádio, aeroporto, museus, prédios residenciais e administrativos, enfim, é um país completo. É o único país do mundo onde o latim é a língua oficial (quem disse que é uma língua morta?). É também um dos únicos casos de monarquia eletiva do mundo.

Countryside da Cidade do Vaticano. Dos muros para dentro é um outro país!

Depois de mandar um cartão postal pelas Poste Vaticane, segui o meu passeio até a igreja de Santa Maria del Popolo, familiar a todos os que leram ou assistiram Anjos e Demônios, de Dan Brown.

Nave da igreja de Santa Maria del Popolo.
A peculiaridade desta igreja é possuir um toque de vários importantes artistas italianos, como Rafael, Caravaggio, Bramante e Bernini.

Uma das obras primas desta singular igreja é a capela Chigi, projetada por Rafael e adornada com belíssimas estátuas, sendo a mais chamativa a do profeta Habacuc e o anjo, de Bernini. Amei também as duas pinturas de Caravaggio (fui formalmente apresentado a ele em Roma, e desde então passei a apreciá-lo muito), retratando a crucifixão de São Pedro e a Conversão de São Paulo. A maneira como ele pinta e como joga com a luz é fantástica.

Habacuc e o Anjo, de Bernini.
Magnífico órgão da igreja
de Santa Maria del Popolo





















Ao sair da igreja reparei que não longe da praça havia um belvedere em meio ao verde, e decidi portanto subir até lá para ver como era. E mais uma vez fui golpeado pelas surpresas cênicas de Roma.

No topo do belvedere balaustrado se tinha uma esplêndida vista da cidade, mas o mais belo era o parque que se estendia para trás. Flores e canteiros mediterrâneos, fontes, tamareiras, papoulas, a luz do sol dourada penetrando por entre as folhas dos pinheiros. Quando a brisa batia tudo era envolvido pelo forte perfume das glicínias, que rosas e azuis pululavam em volumosos cachos de flores.

Pessoas passeavam e namoravam deitadas na grama. Tudo estava envolvido por uma aura transcendental, o jardim não tinha mais idade, podia estar na Roma antiga ou no século XXI, ou mesmo podia ser um jardim mitológico; talvez o Jardim das Hespérides, não sei. Mas foi uma experiência tão forte e envolvente que, apesar de ter várias coisas para visitar, fui forçado a ficar sentado na grama por um bom tempo, absorvendo tudo, sentindo o perfume das glicínias e os estrídulos dos periquitos que se agitavam nas tamareiras.


Tamareira serena no parque.

Fonte no parque.

Por fim,  a custo e sacrifício consegui sair daquele local mágico e descer à praça novamente. O nome do parque, descobri depois, é Villa Borghese. Recomendo fortemente a quem vá a Roma que passe uma tarde lá. Lá havia uma multidão de pessoas que assistia artistas de rua, que ou dançavam habilidosamente vestidos de Michael Jackson ou faziam bolhas de sabão gigantes, para a alegria das crianças.

A Piazza del Popolo fica exatamente no final da rua Corso, que é uma das ruas mais importantes ruas de Roma. Na outra extremidade desta rua fica o monumento a Vittorio Emanuele II, portanto da praça eu pude ver que o sol da tarde estava tingindo de vermelho aquilo que para mim é um dos mais bonitos monumentos da Europa.

Desci a rua às pressas e consegui chegar a tempo de ver todo aquele mármore ruborescido pelo sol resplandecendo no coração de Roma. Se o monumento já era estupendo com sua cor normal, agora era de fazer chorar.

Um dos mais belos monumentos da Europa banhados pelo sol.

Como se não bastasse todo esse bombardeio de sensações, atrás dele, a rua dos Fóruns Imperiais estava toda na sombra do monte Capitolino, mas o Coliseu ao fundo estava banhado de rubro pelo sol.

Corri rua abaixo para tentar fotografar todo aquele esplendor, seja cênico que arquitetônico, que enchia os olhos ao ponto de arrancar ao menos um suspiro de empolgação. Roma me proporcionou algumas das perspectivas mais lindas que já vi e verei em toda a minha vida.

Rua dos Fóruns Imperiais com o Coliseu a fundo.
Voltei para casa com uma indescritível sensação de felicidade, pois todas essas maravilhas eram muito mais do que um ser humano merece ver. Ou talvez não, pois foram os seres humanos que construíram tudo aquilo. Foram os seres humanos que ergueram Roma e a preencheram com histórias até o transbordamento. Sim, os seres humanos são criaturas admiráveis. E Roma é um testemunho dessa grandiosidade.

O esplendor do Coliseu ruborescido pelo sol italiano.

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