"Lá na terra da vida e dos amores
Eu poderia viver inda um momento...
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento"
Álvares de Azevedo
Neste dia eu tinha a intensão de realizar outro sonho de infância e conhecer a Costa Amalfitana. Fui até o ponto de ônibus e esperei. O ônibus não passou. Esperei mais um pouco, mas ônibus continuava sem passar. Perguntei a uma barista se o ônibus já havia passado e se ela sabia o que havia acontecido, mas ela disse que não para ambas as perguntas. Dali a pouco passou um policial. Pedi a ele se havia algo errado com o ônibus e ele não fazia a menor ideia. Depois de mais de uma hora esperando o ônibus eu desisti de ir à Costa Amalfitana e fui, então, conhecer o centro de Sorrento, que era ali do lado.
Escrevi esta passagem acima para ilustrar como que, ao visitar a província de Nápoles você tem que estar disposto a mudar constantemente de planos. Como eu disse, em Nápoles não se faz planos e se vive o momento. Pode parecer uma maneira poética de viver, mas não deixa de ser uma estratégia de sobrevivência, porque este tipo de coisa é mais do que comum; é corriqueira. Uma vez, no centro de Nápoles, eu estava no ponto de ônibus e perguntei a uma mulher a que horas passaria o ônibus. Ela riu de mim e respondeu "não tem hora, eles passam quando querem!".
Assim fui caminhando do ponto de ônibus de Sant'Agnello, onde está o hostel, para Sorrento. No caminho vi que a estrada foi fechada para recapeamento e os ônibus passavam por outra via, mas ninguém nem a polícia sabia disso. Mas enfim, estamos no sul da Itália!
Sorrento é uma cidade muito pequena, mas muito bonita. Fica encarapitada no topo de uma falésia de uns 50 metros de altura, rasgada em alguns pontos pelos cursos de água até quase o nível o mar.
A cidade é linda, sobretudo charmosa. Poucas ruas e vielas estreitas, mas todas muito limpas e bem cuidadas. As praças são ajardinadas, as casas pintadas, e tudo resplandece com o ar irreverente do sul da Itália. Mesmo que com os varais estendidos sobre as ruas e nas sacadas, tudo é bonito.
A cidade abraça amplamente o golfo de Nápoles e possui uma vista única do monte Vesúvio. À noite, as luzes tremeluzentes da capital do outro lado cintilam sobre o mar, e tudo exala paz e inspiração.
| Sorrento abraça o golfo de Nápoles. |
| Rua principal de Sorrento. |
| Uma viela de Sorrento. |
Eu conhecia uma canção napolitana em que o filho emigrante diz à mãe "A vuje ve sonno comme a 'na Maria / cu 'e spade 'mpiett' 'nnanz'ô'figlio 'ncroce" (difícil de pronunciar, não?) que significa "a vós eu sonho como uma Maria / que com espadas no peito olha o seu filho na cruz". Eu achava excessivamente dramático, mas depois que conheci a addolorata entendi o que Massimo Ranieri queria dizer.
| Cu 'e spade 'mpiett' 'nnanz'ô'figlio 'ncroce. |
O que mais me impressionou no sul da Itália foi a quantidade de artesanatos que existe. É uma coisa admirável. Na província de Nápoles, são famosas as porcelanas de Capodimonte, os trabalhos com coral, a tradição do presépio, o limoncello, os artigos de couro, a marchetaria, o camafeu, e em Amalfi ainda existe o papel de Amalfi, um tipo de papel de algodão muito especial.
Eu nunca gostei de porcelana, mas aquelas de Capodimonte são algo de deixar o queixo caído, tamanha beleza e perfeição das peças. Havia buquês de flores expostos nas lojas que aos olhos de um desatento passariam sem dúvida por flores reais. Geralmente as porcelanas representam, quando não arranjos de flores, camponeses e pescadores em suas atividades ou em algum tipo de lazer. Há belíssimas porcelanas destas exibidas no Museu de Capodimonte, a antiga residência da família real napolitana.
Os presépios napolitanos são maravilhosos, com todos os bonecos feitos à mão em cerâmica, peças delicadas vestidas com vários tecidos engomados. Os cenários também são construídos meticulosamente e há uma infinidade de personagens. Praticamente todas as igrejas possuem um presépio. Para se fazer um presépio verdadeiramente napolitano é preciso seguir algumas regras, das quais, infelizmente, só lembro de duas. Uma é que as peças devem ficar maiores conforme se distanciam da Sagrada Família, para criar a ilusão de perspectiva. A segunda, no presépio deve constar uma taberna, "antro do pecado", para antagonizar com o bem, Jesus e família, logicamente.
A cultura do presépio é tão rica que eu poderia dedicar um post inteiro só a isso, se tivesse tempo. Porque cada local e cada único personagem tem um significado. A cigana, devido a sua capacidade de prever o futuro, representa o sofrimento que está por vir a Jesus. O pescador representa o "pescador de homens", alusão à passagem da Bíblia em que Jesus diz: "e eu vos farei pescadores de homens" (Mat 4:19). A meretriz, colocada junto à taberna, se contrapõe a pureza de Maria. Há também os dois compadres, tio Pascale e tio Vicienzo, alegorias do carnaval e da morte.
| Presépio na igreja principal de Sorrento. |
Essas contraposições do sagrado e do profano, do casto e do impuro, do alegre e do triste, da morte e da vida, são muito típicas do barroco e por extensão muito típica de Nápoles, cidade de contrastes, desesperadamente barroca. O esplendor do Reino de Nápoles teve seu auge nessa época, e em sua capital esses ideais foram facilmente assimilados por um povo que aprendeu que a alegria e a vida acabam num instante como nos poucos segundos de um terremoto. Um povo que conviveu com as guerras, mas que aprendeu a ser feliz e gozar a vida ao mesmo tempo que teme o Vesúvio. Acredito que venha daí o jeito irreverente do napolitano, que procura sempre aproveitar o momento, pois nunca se sabe o que vem depois. Mas, é claro, estas são as minhas impressões do povo napolitano, baseado no que eu li e vivi. Pode ser que esteja tudo errado.
Voltando aos artesanatos, tem o limoncello, licor feito da casca do limão-siciliano, que tomado gelado ao fim de uma abafada tarde italiana é simplesmente uma das joias das bebidas italianas. O ambiente romântico e perfumado da Itália com a sua brisa cálida e com os últimos raios de sol bruxuleando no mar lá embaixo ajudam muito a melhorar o sabor. Uma coisa interessante é que as plantações de limão-siciliano são todas cobertas por uma tela tipo sombrite. É estranho que o sol direto faça mal aos limões, na minha opinião, mas não cheguei a descobrir o porquê.
Lá se faz muita joalheria com o coral, como colares, brincos, pulseiras, broches, etc. A cor vermelha natural desses corais extraídos do Mediterrâneo é muito intensa e muito bonita. Há dois tipos de artigos em coral. Um, esculpindo-os ou usando as formas naturais e a outra fazendo uma pasta com o pó do mesmo, que geralmente é feita com os restos da manufaturação do coral, sendo esta última de menor qualidade. Uma coisa muito comum na região é o cornetto, um chifrinho de coral que é usado como amuleto para trazer boa sorte.
A marchetaria aqui usa diferentes tons de madeira para criar desenhos incríveis nos mais belos objetos, de caixinhas e ímãs de geladeira a móveis maravilhosos. Fiquei tentado a levar uma mesa para casa, de tão esplêndida que era. Pena não ter meios, espaço e dinheiro para fazer uma aquisição daquelas...
O camafeu é típico da região como um todo, mas mais especificamente do município de Torre del Greco, onde os mais refinados bustos femininos são esculpidos delicadamente nas conchas marinhas, retirando-se as partes mais espessas e criando um desenho emoldurado por mineral translúcido. O camafeu é uma arte suave e muito refinada. Imagino que seja extremamente difícil escupir uma concha, já que elas crescem em camadas, e não deve ser fácil moldá-las sem destacar uma camada da outra.
Os artigos de couro são uma tradição mais da cidade de Nápoles, onde são particularmente famosas as luvas. Estas, feitas a mão, infelizmente correm o risco de desaparecer, como boa parte das atividades artesanais do mundo, dando lugar ao industrial. Não cheguei a ver nem experimentar nenhuma luva, pois entrar em lojas de roupa não é exatamente o meu programa quando estou visitando uma cidade pela primeira vez, mas gostaria de adquirir um belo par de couro preto antes do inverno, porque minhas mãos sofrem muito o frio.
Quanto ao papel de Amalfi, deixo isto para alguns posts mais a frente, o da Costa Amalfitana.
O que me surpreendeu não foi somente o fato de existir tanta variedade de artesanato, mas também que todos eram feitos com maestria! Era uma coisa realmente importante e levada a sério, de modo que cada artigo era mais belo e especial que o outro. A qualidade dos produtos é incrível, sendo totalmente diferente do que se encontra em feirinhas de artesanato.
E isto tudo porque eu não falei das comidas, que na província de Nápoles encontram a sua máxima expressão na pizza Margherita, simples mas deliciosa, a quintessência da arte de fazer a pizza napolitana. Reza a lenda que esta pizza foi inventada em 1889 pelo pizzaiolo Raffaele Esposito que, para honrar a rainha da Itália Margherita de Saboia, criou uma pizza simples com molho de tomate, mussarela de búfala e manjericão, fazendo assim as cores da bandeira italiana.
A Margherita é inclusive regulamentada pela associação Verace Pizza Napoletana (AVPN), e para ser considerada vera tem que ser feita com farinha de trigo italiano, tomates San Marzano, mussarela de búfala, óleo extra virgem e deve ser assada em forno a lenha. Se for para ser ortodoxo como rótulo de maisena, nas palavras de Luis Fernando Veríssimo, a pizza ainda tem que ser feita por um homem, que passa um pouco da sua energia viril à massa. E como se não bastasse tudo isso, a Margherita ainda ostenta o selo Especialidade Tradicional Garantida, dado pela União Europeia, e a Itália candidatou-a a patrimônio imaterial da humanidade na UNESCO. Achou que pizza era uma brincadeira de domingo?
E isto tudo porque eu não falei das comidas, que na província de Nápoles encontram a sua máxima expressão na pizza Margherita, simples mas deliciosa, a quintessência da arte de fazer a pizza napolitana. Reza a lenda que esta pizza foi inventada em 1889 pelo pizzaiolo Raffaele Esposito que, para honrar a rainha da Itália Margherita de Saboia, criou uma pizza simples com molho de tomate, mussarela de búfala e manjericão, fazendo assim as cores da bandeira italiana.
| Uma pizza verdadeiramente napolitana. |
A Margherita é inclusive regulamentada pela associação Verace Pizza Napoletana (AVPN), e para ser considerada vera tem que ser feita com farinha de trigo italiano, tomates San Marzano, mussarela de búfala, óleo extra virgem e deve ser assada em forno a lenha. Se for para ser ortodoxo como rótulo de maisena, nas palavras de Luis Fernando Veríssimo, a pizza ainda tem que ser feita por um homem, que passa um pouco da sua energia viril à massa. E como se não bastasse tudo isso, a Margherita ainda ostenta o selo Especialidade Tradicional Garantida, dado pela União Europeia, e a Itália candidatou-a a patrimônio imaterial da humanidade na UNESCO. Achou que pizza era uma brincadeira de domingo?
É nessa incrível variedade de cultura, artesanato e sabores, acredito, que se constitui o principal prazer de passear por Sorrento. Conhecer todas estas manifestações da arte popular napolitana. Além do quê, é uma cidade realmente deliciosa para caminhar.
A descida até o porto é incrível. Por uma fenda lavrada por um riacho desce a rua que se aprofunda até a pequena praia e o porto, onde desembarcam milhares de turistas que vêm nos navios de cruzeiro fundeados ao largo. Ao olhar para cima daqueles paredões de pedra, a cidade está tão empoleirada no topo que parece pendurada, prestes a cair com a menor tremor de terra.
Do outro lado da cidade, no mesmo cânion do riacho, encontrei por acaso uma das visões mais peculiares que admirei. Lá no fundo, cercado por vegetação silvestre e na foz de dois córregos, as ruínas de um moinho abandonado, tão assentado entre as plantas e coberto por heras que parece que foi construído para ser parte do cenário. O local é realmente sugestivo, porque é mais uma daquelas paisagens surreais, saídas de mitos épicos e contos de fadas, que só a Itália sabe oferecer com tanta propriedade.
Uma coisa curiosa de Sorrento e província de Nápoles em geral é que as pessoas entre si não falam em italiano, mas em língua napolitana, que é muito diferente. Às vezes parecia que eu estava em outro país que não a Itália. Me deixou contente ver que mesmo os jovens e até as crianças falavam nessa língua, que também está vastamente registrada em músicas e livros, de modo que acredito que não corra o risco de desaparecer tão cedo, como acontece com outras línguas faladas na Itália.
Dias depois fui conhecer um lugar chamado Banhos da Rainha Giovanna. É uma pequena baía natural onde a água entra por uma gruta e que, segundo a lenda, era o local preferido de banho da rainha Giovanna, embora eu não tenha descoberto quem ela foi. O fato é que o lugar é lindo, com a água verde esmeralda e cercado por carvalhos e giestas que derramam folhas dentadas e flores douradas na areia.
Mas, o que é mais belo nisso tudo é que, ao redor desta piscina e sobre o rochedo adjacente, os romanos com seu refinado senso de estética e beleza construíram uma gigantesca vila, que hoje encontra-se arruinada. Ou seja, o lugar é incrível. Fiquei pensando comigo mesmo como devia ser no passado, talvez com aquela baía de águas cristalinas fazendo as vezes de jardim interno, e os quartos com janelas sobre as rochas voltadas para a baía de Nápoles. Que povo fascinante! Escolheram a dedo o lugar com a mais bela cenografia possível para construir uma vila, que com certeza era forrada de mármores preciosos, estátuas e fontes.
Fiquei impressionado com a quantidade de garotas bonitas na península Sorrentina, além da quantidade, pois não encontrei nenhuma que pudesse ser classificada como feia. Em Nápoles havia algumas garotas feitas, mas de Castellammare di Stabia para cima era o paraíso. Não era bobo o Álvares de Azevedo! Entretanto, parece que elas ficam bonitas até se casarem, pois nenhuma mulher mais velha chamou-me a atenção. Mais uma vez não era bobo o Álvares de Azevedo, que só lembrou de louvar as jovens em seu poema!
Para encerrar este post, deixo o link de uma música que praticamente é o hino de Sorrento, Torna a Surriento, volte a Sorrento, escrita em língua napolitana por Ernesto de Curtis e interpretada pelo grande Pavarotti.
| Moinho abandonado em cânion. |
Dias depois fui conhecer um lugar chamado Banhos da Rainha Giovanna. É uma pequena baía natural onde a água entra por uma gruta e que, segundo a lenda, era o local preferido de banho da rainha Giovanna, embora eu não tenha descoberto quem ela foi. O fato é que o lugar é lindo, com a água verde esmeralda e cercado por carvalhos e giestas que derramam folhas dentadas e flores douradas na areia.
| Piscina natural dos banhos. |
| Restos da vila romana. |
Fiquei impressionado com a quantidade de garotas bonitas na península Sorrentina, além da quantidade, pois não encontrei nenhuma que pudesse ser classificada como feia. Em Nápoles havia algumas garotas feitas, mas de Castellammare di Stabia para cima era o paraíso. Não era bobo o Álvares de Azevedo! Entretanto, parece que elas ficam bonitas até se casarem, pois nenhuma mulher mais velha chamou-me a atenção. Mais uma vez não era bobo o Álvares de Azevedo, que só lembrou de louvar as jovens em seu poema!
Para encerrar este post, deixo o link de uma música que praticamente é o hino de Sorrento, Torna a Surriento, volte a Sorrento, escrita em língua napolitana por Ernesto de Curtis e interpretada pelo grande Pavarotti.
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