O dia de hoje não amanheceu muito bonito, estava nublado e meio chuvoso. Um ótimo dia para ir a museus.
Decidi, então, ir aos museus do Vaticano, um dos lugares que eu queria mais visitar em toda a Roma. Afinal, estes compreendem uma das maiores e mais importantes coleções de arte do mundo.
É curioso que na galeria das estátuas todos os genitais das esculturas foram removidos e substituídos por uma folha de parreira, que evidentemente não é original. Com certeza alguém no passado achou muito indecente todos aqueles "bráulios" à mostra e mandou que fossem removidos.
Na pinacoteca dos museus há um belíssimo quadro de Rafael, Transfiguração, o seu último quadro. É lindo, colorido e dramático. Há também São Jerônimo no Deserto, um quadro incompleto de Leonardo da Vinci.
Fiquei particularmente empolgado por encontrar Laocoonte, uma das mais belas estátuas da antiguidade. Representa Laocoonte, sacerdote de Troia, sendo estrangulado com seus dois filhos por uma serpente. Reza a lenda que foi porque ele suspeitou que o cavalo de Troia estava recheado de gregos e tentou advertir a população, e nisso Atena, protetora dos gregos, mandou a serpente para matá-lo e a seus filhos. Outra versão diz que ou Netuno ou Apolo o mataram por ter-se casado contra as suas vontades. Independentemente da versão, Laocoonte se ferra no final.
A escultura chama a atenção pela sua intensa dramaticidade. Laocoonte tem simplesmente uma expressão de puro horror e, além disso, provavelmente o pesar desesperado de um pai impotente ao proteger os filhos. Me chama a atenção o rosto do filho da direita, que olha o pai com o mesmo olhar que uma criança assustada faz quando tem medo e procura a proteção paterna.
Enquanto isso, a serpente se enrola em todos eles, estrangulando-os cruelmente e todos tentam livrar-se do odioso corpo esguio. A maestria com que foi esculpida, a perfeição da anatomia dos personagens, as expressões absolutamente convincentes e a aparente leveza fazem desta estátua seguramente uma obra prima da arte antiga e uma das mais importantes peças dos museus do Vaticano.
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| Laocoonte, em toda a sua desgraça. |
Passei a toda a manhã e boa parte da tarde lá. Voltei para a casa de minha prima para almoçar e depois segui para ver alguns monumentos ao ar livre, como o teatro de Marcelo.
No caminho, porém, escuto um canto belíssimo de um coral. Faço então uma coisa que adoro que é perseguir música pela cidade, e acabo encontrando-a numa praça em frente a uma igreja. Um grande coral, com orquestra, tocava em comemoração ao 2766 aniversário da cidade, que seria amanhã. Entremeado por músicas e prosa, a apresentação contava a história de roma, desde a sua fundação.
Em um certo momento, um ator vestido de romano se levanta do coro e faz um discurso, exatamente como faziam os oradores romanos milhares de anos atrás, defendendo o finado Júlio César após eu bruto assassínio. Sua interpretação era pungente e empolgante.
Para terminar, cantaram
Va, Pensiero, o hino informal da Itália, de Giuseppe Verdi, e o hino da Itália. Tudo muito lindo.
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| Orador romano em toda a sua eloquência. |
Terminada a apresentação, continuei o meu passeio, até o teatro de Marcelo. À este teatro romano, um importante testemunho da arquitetura antiga, foi pouco a pouco, desde a Idade Média, sendo acrescidas pequenas casas e bodegas, até que virou um antigo prédio de apartamentos, resultando numa interessante fusão da arquitetura romana com arquitetura renascentista.
Pouco avante, há o Pórtico de Otaviana, um pórtico imponente do qual sobraram poucas coisas, mas que ainda assim vale a pena ver. O interessante daquela área é que é cheio de blocos de mármores e restos de colunas espalhados por tudo, nos gramados. Gosto especialmente quando as papoulas crescem em meio às ruínas de mármore, é muito bonito.
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| O pitoresco teatro de Marcelo. |
Seguindo em frente, cheguei na praça Bocca della Verità, onde se encontra a famosa
Bocca della Verità, um medalhão de mármore representando algum deus fluvial, que fez parte de uma fonte e carrega a crença de que, se alguém põe a mão dentro de sua boca e diz algo, se for mentira a mão será cordada fora. Infelizmente a igreja onde fica a boca estava fechada, de modo que só pude vê-la através das grades do alpendre.
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| A temível Bocca della Verità. |
Algo muito interessante que havia na praça são dois templos romanos, tão perfeitamente conservados que se pode ter a ideia precisa de como aparentavam tantos anos atrás. Um dos templos possui a planta circular. É erroneamente identificado como o templo de Vesta, quando na verdade é o templo de Hércules. O outro, de planta retangular, é o templo de Portuno. Ambos são pequenos, porém muito belos. Nas redondezas há também um arco do triunfo, o Arco de Giano, interessante pela sua forma cúbica.
É sempre belo ver o Sol se por entre as ruínas romanas, pois tudo recebe um ar transcendental. Assim terminou meu dia, entre aqueles pequenos templos. Voltei para casa via ilha Tiberina.
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| Templo de Portuno. |
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| Templo de Hércules. |
O dia seguinte foi praticamente exclusivamente dedicado ao fórum romano, um parque gigantesco que abriga as ruínas do que foi o coração da fervilhante Roma,
caput mundi, o centro do mundo, além do monte palatino, onde assentam-se gigantescas vilas* que um dia pertenceram à nobreza romana.
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| O esplêndido arco do triunfo de Constantino. |
Enquanto eu estava indo, entre o Coliseu e o arco de Constantino, uma surpresa: um enorme desfile em comemoração ao aniversário de Roma.
Centenas de pessoas vestidas de políticos, nobres, sacerdotes e sacerdotisas, gladiadores e legiões de várias partes do Império Romano desfilavam acenando para a população. Muito bacana.
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| Legiões romanas... |
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| ...e altos dignitários. |
Em seguida, entrei no fórum e passei pelo arco de Tito, de onde desce suavemente a estrada romana em direção ao fórum. Era tudo magnífico! Os romanos foram sem dúvida um povo grandioso. Colunas de mármore erguiam-se por tudo, como uma imensa floresta de pedra. As estradas eram feitas de pedras perfeitamente encaixadas, mostrando como os romanos eram obreiros invejáveis. E pensar que ali, exatamente ali, foi o ponto de encontro mais importante da antiguidade!
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| O legendário Fórum Romano, com o arco de Tito ao fundo. |
Pensei no burburinho de pessoas correndo para lá e para cá, vendedores e mercadores, senadores com túnicas brancas, mendigos e cegos pedindo dinheiro, lavadeiras passando apressadas, gladiadores adorados pela população, patrícias em suas liteiras, tudo acontecia ali, que foi o centro do mundo conhecido por séculos e séculos.
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| Restos de um templo e a Domus Tiberiana ao fundo. |
Para completar a beleza, milhares de papolas vermelhas e camomilas amarelo-brancas despontavam entre o mármore dos templos, e glicínias azuis e lilases subiam pelas paredes e impregnavam tudo com o seu doce perfume. O esplendor de Roma estava ali.
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| Colunas e arcos, monumentos do Fórum. |
Depois, subi o monte Palatino para ver o que sobrou de seus gigantescos palácios. Voltado para o fórum está o
Domus Tiberiana, o residência de Tibério, primeiro palácio imperial da colina. Lá não é que sobrou muita coisa, infelizmente, mas se pode ter uma boa ideia do esplendor e do tamanho das vilas que outrora encimaram o Palatino.
O que impressiona mais de tudo é a
Domus Augustana, a parte privada do palácio de Domiciano, que é uma coisa indescritivelmente grande. O que sobrou de sua fachada se projeta sobre a colina em direção ao Circo Máximo, lá embaixo, ocupando toda a encosta da colina com seus poderosos arcos de tijolos que mantinham no lugar os terraços do palácio. Tudo é gigantesco, as paredes, as colunas, os arcos. Verdadeiramente impressionante.
Dentro desta vila há o Estádio Palatino, que possuía as funções de anfiteatro e jardim privado, o qual era decorado com estátuas, colunas e arcos. Pelo visto o político não mudou muito desde aquela época, pois sabiam gastar bem o seu dinheiro (que numerosas vezes não era exatamente seu).
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| Ruínas do Estádio Palatino. |
O dia seguinte foi o dia de partir de Roma, mas eu havia uma manhã ainda, de modo que fui até a belíssima basílica de San Pietro in Vincoli para ver a esplêndida estátua de Moisés, feita por Michelangelo. Li que a estátua é tão perfeita que Michelangelo, após terminá-la, agrediu-a gritando "por que não falas?!". Não sei se é verdade ou não, mas dizem que fez mais ou menos o mesmo ao terminar Davi, quando soltou a famosa exclamação "
parla!" (fala!). Se ambos os casos forem verdadeiros, ou ele devia ser meio doido ou devia ser muito convencido.
Divagações à parte, a estátua é realmente magnífica, além de muito perfeita. Chama a atenção o par de chifres que brota da cabeça de Moisés, uma representação dele um tanto comum. Isto é porque houve um erro de tradução da bíblia, onde trocou-se acidentalmente "raio" (de luz),
karan ou
karnaim, em hebraico, por "chifre",
keren, palavras parecidas que, junto da estética medieval onde só Jesus poderia irradiar luz, contribuíram para que Moisés fosse vastamente representado cornudo.
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Moisés, de Michelangelo.
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Feito este curto passeio me dirigi para a estação Tiburtina para pegar o ônibus que me conduziria a uma das mais vivas e radiantes cidades da Itália, mil vezes cantada e declamada, Nápoles.
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| Abundante floração de glicínia em Roma |
*Vila, do latim
villa, é uma luxuosa residência ajardinada, geralmente de campo, muito comuns na Roma Antiga e Itália atual. A palavra empregada assim não tem o significado de vilarejo.
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