terça-feira, 27 de agosto de 2013

Pompeia: dois mil anos de sepultamento

Depois de algumas horas de viagem de ônibus, o tempo começou a melhorar. À minha frente começou a surgir uma montanha muito alta e larga. Quando me perguntei se aquela seria o Vesúvio o ônibus começou a contorná-la e apareceu a cratera do vulcão. Fiquei tomado de empolgação.

Logo depois, passamos por um lugar mais elevado, e por um momento eu pude ver toda a baía de Nápoles. Fui assaltado por uma inesperada felicidade; moro em uma cidade litorânea e há três meses que eu não via o mar; não havia me dado conta de quanto que ele me fazia falta. Foi um reencontro muito feliz.

À direita se via alguns arranha-céus de Nápoles e o castelo Sant'Elmo. À esquerda estava a península Sorrentina e a ilha de Capri. No caso eu estava indo naquela direção, pois fui aconselhado de me estabelecer em Sorrento ou redondezas, e não em Nápoles, já que Sorrento é muito mais tranquila e organizada de que a caótica Nápoles.

Cheguei ao final da tarde após rodar por paisagens maravilhosas, dignas de filme. Na verdade a parte bela da região é a península e as ilhas circundantes. Mas todo o trecho entre Nápoles e a península é horroroso. De verdade. Milhares de prédios baixos e feios amontoados um ao lado do outro, entremeados por plantações de culturas várias em meio aos edifícios, com tudo pichado e cinzento.

De Castellammare di Stabia para cima, porém, eram só alegrias. Cidades e vilarejos, falésias maravilhosas, vista magnífica, plantações de limão-siciliano... Estava muito empolgado de ver aquelas belíssimas paisagens pela primeira vez na vida.

Eu sempre soube que os napolitanos eram muito simpáticos, mas eu nunca havia tido contato com eles. Quando o ônibus anunciou a parada de Sant'Agnello, onde ficava o meu hostel, eu desci, mas não fazia a mínima ideia de onde encontrar a rua.

Entrei numa mercearia e perguntei ao vendedor onde ficava o endereço, e logo uma garota que estava fazendo compras disse que morava naquela rua e que podia me acompanhar. Fizemos o percurso e ela sempre conversando, perguntando de onde eu era, por onde tinha viajado, se estava gostando, etc. Ao final me deixou na porta do hostel e se despediu calorosamente, confirmando o que se diz sobre os napolitanos.

Cheguei à tarde e não tinha nada a ser feito. Fui comprar uma pizza e dormir cedo, porque no dia seguinte eu tinha um sonho de infância para realizar: conhecer Pompeia.

Após o café-da-manhã e desci a península de metrô até a cidade morta que instigou minha imaginação desde que eu me entendo por gente.

Depois de comprar o ingresso, subi uma rua de pedras perfeitamente encaixadas e ainda por cima encrustadas com seixos brancos, demonstrando o capricho e refinamento dos romanos, atravessei uma porta de uma muralha e desemboquei direto no fórum da cidade, ou seja, sua praça mais importante.

Entre os pórticos e colunas se via assomando, a distância, o tétrico cume do monte Vesúvio, que numa das mais devastadoras erupções vulcânicas da História, soterrou as cidades de Pompeia e Herculano no ano de 79 d.C.

O fórum de Pompeia com o monte Vesúvio ao fundo. À direita
do Vesúvio se vê o cume do que restou do monte Somma.

Pompeia ficou magnificamente preservada porque sua destruição foi tão rápida que alguns cadáveres nem tiveram tempo de cair no chão. Tudo ficou como naquela fatídica tarde de agosto, quase dois mil anos atrás.

O que foi horrível nesta erupção foi o fato de que ninguém sabia que o monte Vesúvio, que na época atendia pelo nome de Somma, era um vulcão      ou "montanha de fogo", como se dizia. Então sua erupção repentina pegou a todos desprevenidos. Em um dado momento, o cume do monte Somma colapsou e seu desmoronamento gerou um fluxo piroclástico (mistura de gás, pedra e cinzas), que desceu a montanha a centenas de quilômetros por hora e a mais de 700ºC, matando e destruindo tudo no caminho.

Quando a manhã do dia 27 de agosto raiou, tudo o que havia era uma planície fumegante de cinzas e pedra-pomes. Debaixo de vários metros de escombros vulcânicos jaziam os balneários romanos de Pompeia e Herculano. Os anos passaram, e sobre a cratera do monte Somma brotou um outro cume vulcânico, o famoso Vesúvio. Aquelas encostas devastadas transformaram-se em solo fértil onde a vinha e o limão-siciliano vicejam até hoje.

A cidade foi encontrada no século XVIII, quando começaram as primeiras escavações. Muitos detalhes da vida cotidiana dos romanos foram revelados graças a estas duas cidades. De fato, quando caminhando por todas aquelas ruas e avenidas, era muito fácil imaginar como era a cidade, já que a maior parte das paredes ficou em pé.

Esta erupção inspirou muitos filmes e obras de arte. No Tate British, em Londres, há um quadro magnífico de John Martin (1789-1854) chamado The Destruction of Pompeii and Herculaneum, onde com a maestria e dramaticidade dos pintores românticos ele retratou a destruição épica da cidade. Ainda que o quadro seja fantasioso, é estupendo pelas dimensões e pela cenografia impactante. É um dos meus quadros preferidos do Tate.

The Destruction of Pompeii and Herculaneum, de John Martin.
Não se pode ver todos os detalhes, mas dá pra ter uma ideia
do quão épico é o quadro.
Me surpreendeu o fato de que as ruas tinham calçadas, além de algo semelhante à moderna faixa de pedestres. Grandes pedras retangulares com a altura da calçada atravessavam as ruas em vários pontos. Quando chovia as ruas viravam rios de água e deste modo as pessoas podiam atravessá-las sem molharem-se. Já as carroças e veículos a rodas passavam pelos vãos entre as pedras. Estas carroças, por tanto passarem nas ruas, acabaram deixando dois sulcos nas pedras. É o velho ditado "água mole em pedra dura" em ação. Curiosamente, os sulcos deixados nas estradas romanas foram usados como medida para a bitola dos primeiros trens.

Faixa de pedestres à romana.
Em Pompeia havia muito de um serviço parecido com o nosso fast food. Em certos estabelecimentos, na beira da calçada havia um balcão cheio de bocas era aquecido por baixo com fogo a lenha, mais ou menos como um bufê de restaurante a quilo. Em cada uma das bocas ficava uma comida diferente que o cliente pedia e levava. Praticamente um take-away à la Antiguidade Clássica.

Fast food romano.

Todas as grandes casas de Pompeia tinham um páteo de entrada com um espelho d'água, chamado impluvium. Este servia para recolher a água da chuva, que era usada depois nas atividades domésticas. Além desta função o impluvium tinha a função decorativa e de regular a temperatura. Depois deste átrio aquático ficava um outro páteo, com um jardim interno, onde a maior parte das dependências da casa desembocavam.

As casas ricas de Pompeia eram afrescadas com pinturas maravilhosas, sendo que a maior parte foi retirada e levada ao Museu de Arqueologia em Nápoles, para melhor preservação. Os que ficaram, coitados, após resistirem às maresias, às erupções do Vesúvio e aos inúmeros terremotos, sofrem com os vândalos do séc. XXI que insistem em rabiscar as paredes milenares.

Impluvium e jardim interno ao fundo, em uma rica casa
 na via della Abbondanza, a rua da Abundância. Recebeu
este nome pela quantidade de casas ricas que tem.

Nestes afrescos predomina uma notória cor vermelha, que inclusive deu origem ao tom vermelho-pompeia. Além disso, esses afrescos influenciaram muito a arte decorativa da época (fins do séc.XVIII e início do séc. XIX), por causa dos desenhos refinados e leves.

Um dos mais belos e conservados afrescos é o famoso conjunto presente na vila dos Mistérios, uma luxuosa vila na periferia de Pompeia que recebeu esse nome porque em uma de suas salas retrata uma jovem mulher sendo iniciada nos mistérios de Baco, o deus do vinho e dos prazeres carnais.

Afrescos da vila dos Mistérios.
Uma observação interessante, na vila dos Mistérios por muitas portas e janelas, que eram de madeira, ficaram petrificadas, permanecendo com o aspecto original.

Na sociedade romana, o principal ponto de encontro da sociedade eram as termas. De fato, numa cidade relativamente pequena como Pompeia, havia três, mais ou menos luxuosas, conforme a classe social dos frequentadores. Nas termas se botava a conversa em dia, se fofocava, se discutia política, se tramava conspirações, se firmavam acordos, além de ser o lugar onde todos iam ver e ser vistos.

Ao entrar na terma o visitante se despia no apodyterium, onde havia também nichos nas paredes para guardar os objetos pessoais. Havia três modalidades de banho, geralmente feitas em seguência: O frigidarium, banho de água fria, o tepidarium, banho de água morna, e o caldarium, banho de água quente. Alguns termas contam com serviço de sauna também, o sudatorium.

Frigidarium de uma terma mais popular.
Caldarium da mesma terma.
Todas as termas eram aquecidas por fornalhas subterrâneas cuja fumaça quente fluía por vãos no pavimento e nas paredes aquecendo o ambiente.

Em Pompeia havia muitos templos, é claro, sendo que o mais frequentado pela população era surpreendentemente o templo de Isis, uma deusa estrangeira vinda dos confins do Império que era muito popular entre os camponeses. Como se já não fossem poucos os deuses romanos, ainda se agregavam outros estrangeiros ao panteão, como aconteceu também com Mitra, que veio da Pérsia.

Havia também dois teatros e um anfiteatro, como não podia deixar de ser, para as lutas com gladiadores. Além de um imenso alojamento para eles, onde viviam e treinavam. Infelizmente não se podia entrar.

Anfiteatro de Pompeia.
O que é bom de Pompeia é o gostinho de cotidiano romano que se experimenta lá. Na entrada de muitas casas, por exemplo, há um mosaico representando um cachorro e escrito cave canem, ou seja, cuidado com o cão. Em muitas paredes há rabiscos dos próprios romanos, que já apreciavam pichar naquela época. As ruas são bem preservadas, há os fast foods, bueiros, bebedouros, banheiros públicos, em muitas paredes se vê o encanamento, tudo está ali.

Ruela de Pompeia. Dois mil anos e pouca alteração.
Na cidade arruinada um dos locais que mais atrai turistas, com certeza, é o famoso lupanarium, palavra derivada de lupa, loba, em latim, que é uma gíria da época para designar as prostitutas.

O lupanarium é um dos inúmeros bordéis da cidade, porém é o mais luxuoso. Ao entrar o visitante se depara com um corredor cheio de portas laterais. Cada uma daquelas portas é uma cela onde há uma cama. Sobre as portas, pinturas eróticas mostram as mais variadas cenas e posições sexuais, além de um grande afresco de Priapo, o deus da fertilidade, representado bifálico.

O local estava tão lotado de gente que eu não pude ficar muito tempo. Mas sei que há um andar de cima, com mais quartos, além de alojamentos para as prostitutas e uma latrina, localizada no fim do corredor. Nas paredes das alcovas, há rabiscos em latim vulgar, ou seja, o latim do povo, que é um pouco diferente do latim clássico, falado pela nobreza. Estes rabiscos descrevem noites, lamentações por haver contraído alguma doença venérea ou o nome de alguma lupa que fez a noite inesquecível.

Afresco nas paredes do lupanarium.
Quando o fluxo piroclástico destruiu a cidade tudo foi tão rápido que, como eu disse, os cadáveres nem tiveram tempo de cair no chão. Eu disse isso literalmente. Perto do fórum há um corpo que morreu acocorado contra um muro e permanece até hoje nesta posição.

Todos os corpos encontrados são moldes de gesso porque o corpo original, sepultado nas cinzas apodreceu e sumiu, deixando uma "fôrma" da pessoa. Quando os arqueólogos encontravam um buraco eles preenchiam-no com gesso e escavavam ao redor, retirando o molde do cidadão que conservou todos esses anos a expressão de horror e medo, além de serem visíveis roupas e acessórios.

A maioria desses corpos está guardada, mas alguns foram espalhados por Pompeia e são muito impressionantes. Se você olha para os corpos você está olhando para o rosto contorcido de alguém morto há quase dois mil anos. Isto pode ser bastante perturbador.

Moldes de dos cadáveres de Pompeia.

Expressão de sofrimento petrificada no corpo.
Em meu passeio pela cidade tive mais uma prova da receptividade dos napolitanos. Havia uma excursão de alguma escola com um grupo de adolescente e nos encontramos em uma das vilas. Não lembro como começamos a conversar, mas eles olharam para mim e perguntaram de onde eu era. Quando respondi que vinha do Brasil eles exclamaram "Brasil!!!" e me cercaram bombardeando-me com um monte de perguntas.

Ao final ninguém dava mais atenção ao professor, só queriam saber da minha história, que reconheço, é bastante interessante. Não são muitos os que decidem tirar um ano sabático para viajar por um continente. Se como eu estava bem entre eles e havia um professor para explicar tudo sobre Pompeia me agreguei à excursão e passeamos por toda a cidade, no final eu fazendo mais perguntas ao professor que os próprios alunos.

No fim disseram-me que estavam indo a Salerno, uma cidade mais ao sul, para passar o sábado e me convidaram para vir junto. Eu fui a Nápoles preparado para viver as coisas de maneira absolutamente napolitana, ou seja, sem planos e desfrutando os momentos. Então aceitei de imediato e trocamos telefones. Me despedi deles, agradeci ao professor pela aula de História e segui com o meu passeio.

Como deve ser maravilhoso estudar História na Itália. Os italianos vivem cercados por História, pois possuem tudo; obras da idade da pedra, da Roma Antiga, do feudalismo, do Renascimento, tudo está ali, ao alcance deles. Cheguei a invejar quem pode estudar o Império Romano e ir a Pompeia ver tudo na prática.

Ao chegar no hostel, havia 12 solicitações de amizade no Facebook.

Porta Marina, o principal ingresso da cidade arruinada.

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