segunda-feira, 8 de abril de 2013

Gandria: Celtas, Oliveiras e Contrabandistas

Se existe uma coisa boa em Lugano, é que tudo está à distância de uma pedalada. Em quase três semanas aqui, ainda não peguei o ônibus uma vez. E assim, dia desses eu peguei a minha bike para visitar um vilarejo chamado Gandria, há uns 9 km de casa.

Gandria é uma vila antiga, amontoada na margem do lago e à sombra do monte Brè. É a última cidade antes da fronteira com a Itália ao leste de Lugano. O lugar é único, de um charme especial. Se como a vila é medieval, todas as ruas são um labirinto infinito de escadas estreitas que sobem e descem em todas as direções. Passear por lá é mágico, sempre há uma esquina escondida, ou um pórtico baixo que o leva a um local inesperado, como uma pracinha florida ou a margem do lago. É delicioso ficar explorando o lugar.

Como todas as pequenas cidades da Europa, no centro da vila há uma igreja. Isto é uma coisa que me chamou a atenção, pois já havia percebido isto em vale Verzasca, quando lá estive: Por fora, as igrejas totalmente sem graça, desprovida de qualquer ornamento. Mas, quando entrei para ver como era, percebi que o interior é magnífico. Afrescos do pavimento ao teto, estátuas, esculturas, quadros belíssimos, tudo num estilo inconfundivelmente barroco. Me impressiona como artistas tão habilidosos cheguem a lugares tão distantes e isolados para criar obras tão belas.

Após passar a manhã inteira explorando cada viela de Gandria, sente-me ao sol, ao lado de um alecrim centenário todo florido de azul em frente ao lago, para ler um pouco sobre a história do local num folhetinho turístico que encontrei. Fiquei impressionado em como uma cidade tão pequena pode ter uma história tão interessante.

A região ao redor de Gandria era habitada por celtas que nomearam vários locais importantes ali, como o monte Brè, que significa "montanha" em celta, e o lago de Lugano, chamado em italiano de Ceresio, cujo nome vem de Keresios, o deus da fertilidade desse povo. Perto de Gandria há uma rocha com inscrições misteriosas que possivelmente era usada em rituais religiosos, conhecida como Sasso della Pedrescia, ou Sasso delle Streghe, a Pedra das Bruxas. Eu não sei onde está essa pedra, mas gostaria de vê-la.

Em 196 a.C. os romanos ocuparam aquelas paragens e deixaram vários traços de sua presença, como algumas tumbas e objetos encontrados das cidades ao redor. Nesta época o local onde se situa Gandria ainda não tinha sido ocupado definitivamente.

Gandria veio a ser mencionada pela primeira vez em um documento de 1237 endereçado ao bispo de Como, sob o nome de "Gandrio". A Gandria medieval somente era acessível por barco ou por trilhas de difíceis nas encostas íngremes do monte Brè. Por isso a população deveria ser auto-suficiente, dedicando-se além da agricultura, da vinicultura e da pecuária, à pesca.

Uma atividade econômica muito importante em Gandria sempre foi o cultivo de oliveiras (na Suíça?! Sim, isso mesmo). A região foi até notória pela qualidade de seu óleo de oliva. Hoje existe a Rota das Oliveiras, uma trilha que passa pela vila e por olivais costeando o lago, repletas de informações sobre o óleo de oliva. Entretanto, a festa acabou em 1709, quando um inverno excepcionalmente frio destruiu a maior parte das oliveiras. Hoje se tem retomado a atividade oleífera e várias árvores foram plantadas novamente, de modo que a maior parte das oliveiras que encontramos lá são ainda jovens.

Gandria era uma cidade de fronteira, e devido ao seu difícil acesso e dificuldade de controle, a cidade acabou virando um entreposto de contrabando, especialmente de cigarros, carne e bebidas alcoólicas. No Museu das Alfândegas Suíças, lá perto, está exposto um pequeno submarino que era usado para contrabandear salame!!!

Do outro lado do lago, na encosta das montanhas, há o que são chamadas de Cantinas de Gandria, locais isolados que por serem frescos e úmidos devido à proximidade do lago e das florestas, propiciam as condições ideais para o estoque de queijos, vinhos e salames. Essas cantinas deram origem a um tipo de restaurante muito típico do Ticino chamado grotto, sobre o qual escreverei no futuro.

Em 1936 foi inaugurada uma estrada que liga Lugano à Itália e que passa por Gandria, e então uma nova era começou para o vilarejo. Hoje em dia a praticamente toda a população trabalha em Lugano, principalmente no setor bancário e largou mão da vida de agricultor-pescador. Se como o local é agradabilíssimo, muitos estrangeiros vieram morar em Gandria, mas a maior parte da população ainda descende de famílias ali arraigadas por séculos.

Em 2004 Gandria, que até então fora uma comuna independente, foi anexada a Lugano, passando a ser um bairro dessa cidade. De qualquer modo, não perdeu em nada o charme de pequena cidade de interior, longe de agito e imersa em tranqüilidade e paz.

Foi esta visita a Gandria que me convenceu definitivamente a escrever o blog, pois eu fiquei surpreso em como até mesmo um lugarejo tão pequeno pode ter uma história tão interessante, e quis compartilhar estas descobertas e aprendizados com mais gente. Espero que vocês um dia venham conhecer este lugar tão especial!

Gandria vista do lago. Tive de pegar esta foto na internet, para que saibam como é a  vila.

Uma das inúmeras escadas de Gandria.

Uma viela do vilarejo.

A igreja de São Vigílio, vista por fora.

A igreja vista por dentro.

Lagartinho esperto tomando o sol da tarde.
Viela gandriesa levando a um local inesperado.
Fachada da igreja e campanário.

Olivais em Gandria. Notem como são jovens as árvores.


Algo realmente raro de se ver na Suíça!
A Itália vista de Gandria.



Um comentário:

  1. amei o artigo... gostaria de saber o significado da palavra Gandria. pretendo colocar esse nome em minha filha. por favor se souber. me mande um mail falando. anjoscnc@bol.com.br ou no mail o_celino@yahoo.com.br

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